Eu x CB

Aconteceu num dia que havia dado cristo, mais cedo.

Durante todo dia havia avistado do meu local de trabalho,parapentes e asas voando lá e aquilo me deixava no maior estado de exitação...não queria estar ali,queria estar voando...Tentava buscar um pretexto ou um motivo para dar abandono no trabalho e ir voar,mas naquele dia, para azar meu, estava com algumas pendências sérias e estava impossibilitado de sair.

Tinha naquela época uma nova nomorada que eu gostava muito, que ainda não havia visto eu voando e gostaria de impressioná la, fazendo para ela uma apresentação para ela me ver voar.
Havia combinado com ela buscá la naquele dia e tinha até uma filmadora para ela me ver voar e me filmar...

Mas só pude me desencompatibilizar de tudo mais tarde,bem mais tarde... só às 5:00 hrs ,fui buscá la e partimos em disparada para São Conrado antes que ficasse escuro.

Nem fui na praia ,na área de pouso ,era tarde 6:00 hrs ,um costumeiro engarrafamento do centro da cidade até São Conrado ,me impedira de chegar mais cedo,não havia naquele momento ninguem voando.
Me lembro que dei uma carona para um voador de asa ,Beto Pontes ,que me disse que o vento estava meio forte ,que o momento de vôo tinha sido antes, mais cedo,que em função do ventão e de uma situação de nuvens baixas e rápidas que derramavam no vale de São Conrado, o melhor era não voar... ,mas a anciedade era muita e não frustraria a namorada nova, eu queria que ela me visse voando,afinal eu era um "Top Fly".

Cheguei na rampa.

O vento era forte,as birutas estavam assanhadas dançando freneticamente,
como esses bonecos de posto de gasolina.Eu nem aí...vamo voar ,prepara o equipamento, um Meteor Gold 91 com selete de pilotagem.
-Prepara a filmadora...tudo pronto?

Decola...e sobe ,que sustentação!!!
Dá até pra arriscar uns wing overs umas curvinhas mais fortes,espirais ,isso iria impressionar a moça.Tá tudo filmado e documentado...
Tá bom,após algumas firulas ali ,vamos para a praia...ela fazendo o meu resgate.

Tinha um massaroca vindo do mar,estava mais baixo que a rampa,um detalhe facil de superar ,pensei eu...era só furar aquela nuvenzinha boba...

Decolei...

Tchau... to indo...pra dentro da nuvem...1,2,3,4...1000,1001 ,e nós dentra da nuvem ostra , tudo branco...que frio!tô molhado...cadê a praia? cadê? Meu Deus!
Havia ouvido falar que enquanto tá tudo branco tá legal...pior é quando fica preto...É a Pedra ou o Morro a frente e vc em rota de colisão...
Agora me dava conta da M que estava metido...orelha,orelhão ...e nada talvez uns 4 ,5 minutos sem ver nada...Vamos fazer um B...

Fazer B com selete de pilotagem é algo muito esquisito,talvez a maior parte de vocês não conheçam (coisa jurássica).Selete de pilotagem é diferente das outras justamente no ponto de fixação,ao invéz de todos os tirantes do parapente convergirem para um só ponto,elas se dispoe de forma linear,se distribuindo em sequência ,com um distanciamento entre elas...
Mas um B Stall com selete de pilotagem é uma coisa caótica, o parapente todo bagunçado entrando em curva pra dentro...mas agora sim, vi a praia ,estava a uns 200 mts e a nuvem no meu nível.
Soltando e liberando...vou me salvar ,obrigado Senhor!
Mas que nada... subindo de novo ,orelha,orelhão...B Stall de novo agora fora da nuvem ,mas sobre o Gávea Golf,soltando...subindo...Ai meu Deus!

De novo e de novo aparecendo e desaparecendo...pelo ponto de vista dos espectadores em relatos posteriores, foi um morrer/ressucitar,aparecer/desaparecer em todos os locais de São Conrado...
Sobre o Tunel ,na frente, atraz,sobre o Nacional,sobre a praia,mais a direita,mais a esquerda,por mais de meia hora...40 minutos eu calculo...
E a namorada? Sozinha na praia,sem saber o que passara com o seu grande heroi o seu idolo alado,intrépido e babacão...
Numa das vezes reparei que a minha mão estava toda cortada de fazer orelhas naquele bacalhal bocão(graças a Deus)...E na última vez estava passando de ré,a uns 30 km/h pelo ralo (entre a P Bonita e a Gávea).

Detalhe: sem rádio e sem reserva,sem luvas e o mais importante ,sem juízo...
Pela primeira vez ,perdia altura e não quiz perder essa oportunidade,pois a lei da gravidade tinha sido alterada,pois só subia...Pois após passar para o outro lado, não da vida ,mas do morro, peguei o rotor e desci.
Até ver uma grande árvore onde em aproximação resolvi ficar...parecia minha mãe de braços abertos,me chamando...Penso que não foi uma arborizada comum,foi um pouso de precisão na árvore.

Na árvore...

To vivo! Mas era melhor não comemorar muito...Estava numa árvore de uns 30 metros, muito alta ...era quase 7 horas da noite e o helicoptero não devia vir.
Primeiro porque com a falta de visibilidade do pouso para onde eu caí,ninguem viu.
Segundo que pelo horário adiantado,o CEGOA não mandaria um helicóptero aquela hora...
Tinha que descer daquele mirante selvagem ...Minha mão toda cortada,com as linhas tatuadas e deixando o formato daquelas linhas grossas do Meteor Gold além disso, meus braços doiam ,do esforço de puxar B, e orelhas me deixou muito cansado ,com se tivesse feito 30 minutos de supino...
Mas não era hora de ficar de bobeira ,chovia um pouco,a noite ia chegar e eu tinha que descer logo...

A volta...

A arvore gigante tinha galhos só na copa,abaixo era só tronco,tinha que descer tipo pau de cebo,com as minhas mãos e braços detonados ,que canseira!
Ao alcançar o tronco não tive forças para descer apaoiando ,me soltei a despenquei de uns 20 metros,acho...até bater no chão ,estava doído ,meu joelho doia muito ,bateu no chão,mas podia andar...por incrível que pareça...
O parapente ficou lá forrando de rosa aquela arvore gigante...

 

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