Caiu dentro de um barraco da Favela da Rocinha

Dezessete de abril de dois mil.
Aconteceu um acidente sério comigo, e dá aquela vontade de desabafar e compartilhar o ocorrido. Eu até agora não consigo pensar em outra coisa.

Domingo, farofa no Pepino, eu na segunda decolagem do dia por volta das 2:00. Vôo de vento e chupada de nuvem; encostei na base da nuvem em cima da rampa a 650 m, e tirei direto pro Crocaine. Não perdia nada na tirada, e fui direto para o Dois Irmãos. Já estava quase chegando, a uns 50 metros abaixo do cume. A montanha a minha frente com a encosta descendo para minha direita, e eu ao invéz de ir mais para este lado, onde ficaria acima da linha da encosta, mandei um pouco mais para esquerda pois vi alguns urubus ganhando, já no outro lado. O vento predominante era sudoeste, mas la parecia entrar quase de sul, vindo do mar. Quando estou quase na linha da cordilheira levo um front forte. Até ai eu me lembro bem, eu tava calmo, na verdade calmo demais. Eu pensei, estou alto, nao tem problema. O parapente chegou a fazer uma meia volta e reabriu, e eu comecei a voar, agora ja tentando ir na direção do Hotel Nacional. Só que aí eu ja estava abaixo da linha do morro, e completamente no rotor. O parapente fechou de novo, abriu de novo, e começou a fechar uma vez atráz da outra. Não deu para pensar em mais nada, tudo passando muito rápido, e quando me dei conta eu estava em espiral negativa, bastante centrifugada. Alguem voando perto me disse depois que o parapa alem de rodar muito rápido ainda fechava dentro da espiral. Cheguei a jogar o reserva, mas eu ja estava quase no chao. Na verdade, eu nem vi o chão chegando. Cai de costas no telhado de amianto de um barraco pequeno, bem no meio da favela. Quando me dei conta do que tinha acontecido eu estava dentro do barraco, uma cama beliche de um lado, fogao e pia do outro, e pedacos do teto por todo lado.
Diante daquela situação completamente bizarra,estava eu lá dentro da casa de alguem e
podia até ligar a TV ...
Bricadeiras a parte, o fato é que nasci de novo...Não demorou muito e veio o pessoal da vizinhança e curiosos para assistir o homem que caiu do céu.
Sai inteiro, sem nehum arranhão nem dor nenhuma. Por uns momentos ainda fiquei procurando o reserva, que eu nem estava certo se tinha ou nao lancado.
Bom, que licoes eu posso tirar disso:
No fundo, a razão principal do acidente foi excesso de confianca. Eu voo ha seis anos e sempre fui um voador cauteloso, as vezes até medroso. Mas sei la, no ultimo ano eu tenho voado muito, e agente comeca a achar que e' bom, que pode ganhar tudo sempre. Soma-se a isso a evolução dos parapentes, cada vez melhores e mais seguros. Em retrospectiva, ha duas semanas atraz eu fiz uma tirada baixo do inicio Crocaine para as torres de alta tensao do fim da Rocinha, algo que ha um ano eu não faria. Hoje mesmo pousei no Golfe no primeiro voo, algo que so havia me acontecido uma vez, nos meus primeiros meses de voo. Nao e' coincidencia. Talvez se nao fosse a primeira fechada hoje eu teria ganho o Dois Irmaos e feito um voão. O mais importante e' lembrar que agente não pode (ou não deve) voar tão no limite, onde apenas um erro de avaliação ou uma fechada podem ter consequências tão sérias. A outra coisa que todos nos sabemos, mas vale repetir, e' o quao perigoso sao os rotores. Me parece que com obstáculos pequenos a frente o rotor fica pior. Na Europa agente voa dentro de vales, no rotor de paredoes de mil metros, e não há problema. Eu entrei no rotor do topo do Irmão maior, assim como o Barão entrou no rotor da cabeça da Gavea, e o outro rapaz no rotor do tunel. A única diferenca e' que eles nao tiveram um telhado de amianto para amaciar suas quedas. Eu jamais tinha passado por uma situação tão fora de controle, e com a certeza que eu relamente poderia ter morrido. E' algo que mexe com a gente.

Luis Ghivelder RJ

 

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