Hoje
completamos 31 dias no sertão nordestino e a cada
dia que passa o recorde mundial parece mais distante.
Os ânimos já estão completamente abalados,
a pressão de ter passado tanto tempo em busca de
um objetivo já há muito tempo pesa em nossos
ombros, e não resta mais muita motivação
e nem muitos dias. A situação atual também
não é das mais confortáveis, pois
durante o XCeará muitos pilotos começaram
a copiar nossa estratégia de decolar bem cedo e
sobreviver durante a manhã, o que nos pressionou
psicologicamente ainda mais. Afinal não seria justo
após tantas tentativas e tanto estudo do local,
chegar um estrangeiro e quebrar a marca de 423 km. Seria
um desastre. O mais importante naquele momento era tentar
abstrair toda a pressão e confiar em nossa própria
capacidade.
O
dia amanheceu azul prometendo condições
perfeitas para bater o recorde. No entanto, durante os
momentos iniciais do vôo, o cenário foi mudando
radicalmente, com uma camada de stratus densa condensando
acima dos primeiros cumulus do dia e sombreando a rota.
Um desânimo inicial quase atrapalhou o dia que proporcionaria
o primeiro vôo acima de 450km no Brasil.
Meu
vício de abrir a cortina do quarto para checar
a condição pela manhã não
existe mais. Prefiro não mais ter opinião
sobre o dia antes de chegar a Monsenhor Tabosa voando.
Mas logo na subida da rampa, já havia uma densa
camada de umidade em médias camadas da atmosfera
desanimando muito os pilotos. Alguns pilotos até
riram quando colocamos a vela em posição
de decolagem, o cenário indicava um prego logo
atrás da rampa em Custódio.
Havíamos
combinado em voarmos juntos para acelerar a velocidade
média até o fim do dia. A dúvida
era saber se isso seria possível, afinal voar dez
horas completamente juntos no mesmo ritmo seria extremamente
difícil. Decolamos as 7:20h completamente desacreditados
pelos que nos observavam. Alguns outros pilotos corajosos
decolaram no mesmo horário.
Logo
na saída o plano de voarmos juntos já não
funcionou. Nos separamos na primeira térmica e
acabei saindo da rampa em companhia de Francisco Ceará
e André Modelo, enquanto Frank e Cecéu resolveram
esperar mais alguns minutos. Minha saída foi desastrosa,
minha segunda térmica praticamente não existiu,
eu acabei me separando de todo mundo e fui para uma altura
crítica próximo a serra do padre (km 15).
Cheguei a 150 metros de altura embaixo de uma região
completamente sombreada, eram quase 8:00h e minha situação
não era nada confortável. Com muito custo
consegui encontrar uma maneira de sobreviver e voltar
para o vôo.
Cecéu
e Frank saíram um pouco atrás também
em situação complicada, cruzando uma extensa
região úmida e muito sombreada. Conseguiram
sobreviver se arrastando pelos monólitos daquele
inicio de vôo. Enquanto isso, André e Ceará
deslocavam-se por uma rota um pouco mais a direita e já
engatavam numa condição muito bem formada,
colocando uns bons 10 km a nossa frente. Minha ansiedade
era grande, mas ainda restavam mais de 9 horas de vôo.
Quando
avistei Frank e Cecéu juntos há cinco quilômetros
de mim, pensei que poderíamos facilmente conectar
em pouco tempo. Errado. Como era muito cedo e os ciclos
ainda estavam bem curtos, não consegui me manter
no mesmo lugar e fui obrigado a continuar adiante sozinho
até que eventualmente eles pudessem me alcançar
para juntarmos o grupo.
Antes
de Madalena chegamos a ficar bem próximos, mas
como minha linha de térmicas estava funcionando
bem melhor, acabei me adiantando ainda mais em relação
a eles. Frank e Cecéu escolheram uma linha complicada,
que os manteve o tempo inteiro com a corda no pescoço
até o platô de Monsenhor Tabosa. O resumo
desse inicio de vôo era um cenário complicado,
com nuvens estratificadas em camadas médias da
atmosfera filtrando muito o sol já fraco da manhã,
o grupo desmantelado com Cecéu e Frank juntos não
conseguindo se deslocar satisfatoriamente para me alcançar,
eu totalmente sozinho a frente com um medo enorme de cair,
André e Ceará com 10km de vantagem e a total
certeza de que se sobrevivêssemos a manhã,
facilmente chegaríamos nos 400kms. Mas nós
tínhamos um problema, uma dupla de pilotos extremamente
competentes e capazes, voando juntos a nossa frente. Isso
significava que estávamos atrasados.
Minha
ansiedade em conseguir me aproximar da dupla era tão
grande quanto a minha ansiedade em conectar com Cecéu
e Frank. Resolvi acima de tudo controlar minha ansiedade
e mentalizar sobre a minha real situação.
Correr sozinho não adiantaria nada e seria assumir
um risco muito grande para a hora. E mesmo que conectasse
com André e Ceará, pilotos antigos e experientes,
acredito que sozinho não teria condições
de influenciar nas decisões deles. Minha idéia
era atrasá-los ao máximo para dar tempo
ao Cecéu e Frank de me pegarem. Optei por confiar
na capacidade do nosso trio para pegá-los mais
tarde. Decisão conservadora que talvez tenha sido
importantíssima para ajudar o grupo.
Assim
que pulei para o platô de Monsenhor Tabosa, voando
burocraticamente consegui dar tempo para que meus companheiros
se juntassem a mim. Fiquei enrolando numa bolha fraca
para delinear a linha de perturbação para
que eles tivessem mais segurança em pular mais
rápido e mais baixo. Funcionou. Estávamos
no km 110 e finalmente conectamos o time. Um recorde mundial
estava sendo construído naquele momento.
André
e Ceará cruzaram a serra de Tabosa e rapidamente
entravam na planície de Nova Russas com uma vantagem
considerável. Nós nos arrastamos pelo platô
em seu teto de 700m do chão. Logo no final do platô
me desconectei brevemente, pois encontrei um miolo térmico
excelente que me colocou 400m mais alto que os dois, e
para tentar pressionar André resolvi me atirar,
mesmo não estando na base da nuvem, em sua direção
para tentar obrigá-lo a abandonar sua térmica
para não me deixar alcançá-lo. A
estratégia funcionou muito bem, André aproveitou
que já se encontrava em boa altura, para abandonar
sua térmica e me tirar a referência. Mesmo
assim foi possível encontrar a mesma térmica
e assim delinear mais uma para adiantar meus parceiros.
A
idéia de voarmos juntos era excelente e só
traria benefícios, caso ocorresse de fato. Um exemplo
da dificuldade de voar em grupo foi a própria dupla
a nossa frente, pois Ceará e André se separaram
logo na saída do platô, onde Ceará
acabou arriscando mais do que deveria, ficando muito baixo
e permitindo que nós o ultrapassássemos.
Pressionado por ter sido ultrapassado, Ceará acabou
tomando decisões precipitadas e confiou demais
na condição. Acabou caindo por volta de
11:00h perto de Nova Russas. O trio seguia forte, e mesmo
não coincidindo muito bem com os ciclos, conseguíamos
nos deslocar com uma boa velocidade média para
o recorde.
André
estava voando muito bem e com um timing de ciclos térmicos
praticamente perfeito, enquanto nós, sempre 10km
atrás,nos arrastávamos sem conseguir pegá-lo.
Nosso ritmo foi razoável no trecho Nova Russas
(km175) – PedroII (km270). Rastreávamos de
forma eficiente e amistosa, o espírito de grupo
que imaginamos em nossas conversas finalmente tomava cara,
éramos um só organismo. Uma atitude próximo
a Pedro II-PI confirmou.
Colocamos-nos
numa situação complicada e sobre pressão.
Chegamos a Pedro II numa altura crítica para a
hora, 500m do chão ás 14:20h, e estávamos
presos a uma térmica extremamente fraca que nos
tomaria muito tempo para subir, e tempo era uma coisa
que não tínhamos, o relógio é
sempre o maior inimigo de um recordista. Afinal o objetivo
do grupo não era o Xceará e muito menos
acumular mais um vôo de 300km. Resolvi partir para
a agressividade em prol do grupo. Avisei meus parceiros
pelo rádio que arriscaria todas as minhas fichas
numa nuvem logo após Pedro II. A resposta foi sensacional:
“Se um vai, tem que ir todo mundo. É recorde
ou chão!!!”
Um
açude grande logo após a cidade de Pedro
II com uma nuvem enorme muito bem formada bem acima dele
era nosso destino. Nossa bem desenvolvida análise
de nuvens não poderia falhar naquele momento tão
especial do vôo-livre brasileiro, com três
pilotos do mesmo país na iminência de quebrar
o recorde mundial juntos. Eram quase 14h30minh e estávamos
beirando os 300 km de vôo, ainda tínhamos
mais 3 horas de vôo e pouco menos de 150km para
o recorde.
Nosso
maior medo era entrarmos atrasados no ciclo daquela nuvem,
um erro seria fatal naquela altura. Cruzamos o açude
e não batemos em nada. Na verdade erramos na navegação,
e para a nossa sorte o erro ainda era contornável,
pois usamos o chamado ângulo do desespero, quando
não resta mais muita opção, o jeito
é jogar 90 graus em relação ao vento
para encontrar qualquer linha de perturbação
que possa ajudar. A teoria ajudou na prática. Jogamos
para a direita, batemos numa linha ativa, que era a linha
ativa da nuvem, e em meio a uma falhadeira, acabamos encontrando
um miolo de uns 3m/s que melhorou bastante nossa situação.
Rapidamente estávamos em uma altura confortável
e suficiente para continuar nos deslocando.
Fizemos
uma pequena transição até a nuvem
seguinte, onde finalmente atingimos em cheio o ciclo,
nos posicionando muito bem para o horário, 14:40h
na base da nuvem há apenas 15 km de PiriPiri-PI
(km 310). Uma desconfiança de que o recorde de
fato poderia ser batido começava a nos angustiar.
Na
transição para PiriPiri enxergamos André
muito baixo tentando sobreviver um pouco antes da cidade.
Ele de fato cometeu um erro fatal em ficar tão
baixo por ali e acabou pousando. Apesar de ter a certeza
de que mais cedo ou mais tarde o pegaríamos, um
alívio tomou conta do grupo, afinal a partir de
agora tudo só dependeria de nós.
O
cenário a frente não era dos melhores. Apesar
de sempre termos lidado com cirrus e adversidades naquela
região final do vôo, aquele céu por
um momento nos assustou, pois estava muito úmido
e com nuvens estratificadas em camadas médias e
baixas da atmosfera. O deslocamento até Barras
(km 375)foi muito bem estudado e sem grandes emoções,
passamos a direita da cidade um pouco antes das 16:00h.
Ainda tínhamos 1h e 45m para o pôr-do-sol,
que estava marcado para as 17:43h de acordo com o GPS.
Para homologar um recorde devemos cumprir com as regras
locais de aviação, e no Brasil aeronaves
sem instrumentos adequados para navegação
noturna, devem pousar antes do horário do pôr-do-sol.
A
partir de Barras-PI tomamos decisões rápidas
e estratégicas para nos posicionarmos bem naquelas
horas finais. O maior desafio foi conter a ansiedade para
manter a velocidade média, que é sem dúvida
o ponto mais importante para atingir o objetivo em tempo
hábil. O maior problema de voar o dia inteiro é
ser capaz de adaptar-se as horas do dia, ou seja, durante
a manhã não é necessário ter
pressa e assumir muitos riscos que podem facilmente te
colocar no chão. A partir das 11:00h a condição
já começa a arredondar e já torna-se
mais confiável, permitindo um deslocamento mais
agressivo e constante, mas o problema principal é
durante o final de tarde, quando o piloto já vem
com um ritmo acelerado das horas mais fortes do dia e
não percebe que chegou a hora de desacelerar o
ritmo para não cair. Pilotos demasiadamente agressivos
podem até ter a sorte ou encaixar-se perfeitamente
nos ciclos, mas acredito ser muito difícil não
cometerem erro algum.
Comparo
essa transição do meio para o final da tarde
com a chegada de uma longa viagem, onde o condutor entra
em área urbana num ritmo de rodovia, acima do limite
de velocidade e como já está bem perto de
casa (recorde) acaba relaxando e perde a concentração
pelo cansaço. São nessas circunstâncias
que acontecem grande parte dos acidentes. Portanto, assim
como dirigindo, é sempre importante manter a concentração
e o foco até o final, pois um pequeno erro pode
custar caro. Aprendi isso durante dois grandes vôos
que realizei em Quixadá, pois quando me aproximava
do final deixava minhas emoções tomarem
conta das minhas decisões, me atrapalhando a ponto
de não me permitirem cumprir meu objetivo. Cai
duas vezes a beira de transpor os 400 km por isso.
Em
Barras-PI, tomamos talvez a decisão mais sábia
do vôo inteiro, forçando quase 90 graus para
a direita em direção a uma linha de perturbação
que se encontrava acima de uma seqüência de
fogueiras. A nuvem que estávamos de olho na verdade
nem funcionou direito, mas fomos obrigados a subir bastante
tempo em 1,5m/s até atingirmos uma altura segura
para pularmos para a próxima queimada. E assim
foi, eram 16h30minh quando cruzamos a barreira dos 400
kms, ainda restavam 1h e 15 m de vôo, estávamos
juntos e só faltavam 23km para o recorde. Uma euforia
tomou conta do grupo e fui muito bem ciceroneado por Marcelo
Prieto que nos deu as boas vindas pelo rádio ao
seleto grupo de pilotos que passaram dos 400kms. Mas ainda
faltava mais um movimento para ganharmos o jogo. Mais
uma térmica.
Os
planeios após a barreira dos 400 km foram tensos.
Eu e Marcelo nos mantivemos frios e céticos até
estarmos acima da marca dos 423 km, enquanto Frank já
comemorava e já tinha certeza de que bateríamos
a marca facilmente. O “go to”do GPS era Miguel
Alves-PI (km 455) desde o início do vôo e
depois de tudo que passamos, estávamos há
pouco mais de 40km da cidade e há apenas 10km do
recorde mundial de distância livre. Era o momento
de encontrarmos mais uma para garantir.
Alinhamos
com uma seqüência de queimadas e chegamos a
conclusão de que seria impossível não
encontrarmos nada por ali. Nosso instinto funcionou muito
bem durante todo o vôo e não seria agora
no final que seria diferente. Encontramos um miolo excelente
para o horário que nos colocou de volta acima dos
2000m de altura. Era hora de controlar friamente as emoções,
pois o recorde mundial havia sido batido, porém
nosso objetivo era Miguel Alves-PI e faltavam ainda 30km.
Um
dos highlights do vôo sem dúvida foi a chegada
ao rio Parnaíba, divisa de estados entre Piauí
e Maranhão. Esse planeio foi emocionante. Como
falamos desse momento durante tanto tempo, enfim nosso
sonho se realizava, 445km de Quixadá e agente realizando
nosso último planeio em direção ao
tão sonhado Rio Parnaíba. Chegamos lá
a 200 metros de altura acima de uma queimada onde encontramos
bolhas bem formadas e constantes. Era definitivamente
um momento de contemplação. Enfim estávamos
100% realizados, após tantas tentativas, tanto
comprometimento e dedicação.
Durante
o planeio até o rio, sem dúvida foi o primeiro
momento durante todo aquele vôo que consegui relaxar,
após 10h e 10m de pura atenção e
adrenalina, a cabeça estava livre para pensar em
outras coisas. Fiz uma retrospectiva de toda a minha trajetória
no vôo-livre e agradeci muito a todos os personagens
que me ajudaram a estar ali. Lembrei muito de André
Fleury, que certamente estaria ali do nosso lado na parceria
caso já estivesse em condições. Definitivamente
aquele recorde mundial só estava sendo alcançado
no sertão nordestino brasileiro, graças
aos esforços de André Fleury e Marcelo Prieto,
que durante muitos anos dedicaram seu tempo e conhecimento
para desvendar algumas peculiaridades da região.
Foi uma quebra de paradigma, pois durante toda a história
do vôo-livre no sertão, nunca pensou-se em
decolar tão cedo. A janela agora rompia a casa
das dez horas voáveis. Com o grande diferencial
de vento forte e condições meteorológicas
perfeitas.
Olhei
para o Cecéu ainda em vôo do meu lado com
profunda admiração, afinal eu fui abençoado
de tê-lo como professor e sou abençoado de
tê-lo como amigo. Sei que pra ele aquele momento
era tão especial quanto pra mim. Não por
simplesmente quebrar o tal famoso recorde mundial de distância
livre em Parapente, mas por ser recompensado em grande
estilo depois de tanta busca e perseverança. Foram
longos dias fora de casa, suportando muitas críticas,
inveja e pressão. E pensar que nada disso foi em
vão. O regime de quartel que sempre fizemos questão
de impor para manter nossa disciplina, enfim rendia-nos
bons frutos.
Subíamos
a quase 2,0m/s constante acima do Rio Parnaíba
em direção a base da nuvem, eram 17:25h
e não tínhamos muito tempo para pousar.
De fato é contra meus princípios não
cumprir com certas regras de segurança, entretanto
após o pôr-do-sol ainda restam pelo menos
quinze minutos de luz que permitem perfeitamente pousar
em segurança. Se eu não estivesse voando
nessas circunstâncias certamente eu aproveitaria
cada segundo disponível de luz, porém decidimos
abandonar nossa última térmica que nos levaria
para os 500km para garantir a homologação
do recorde. É justo.
A
vegetação do Maranhão já é
bem úmida e verde, com árvores e coqueiros
enormes que limitam em muito as opções de
pouso. Em nosso planeio final ficamos um pouco apreensivos,
pois batíamos em bolhas fraquinhas que não
nos permitiam perder altura, por ironia chegamos a fazer
cálculos de quanto tempo demoraríamos a
pousar se continuássemos naquela razão de
planeio. De fato se continuássemos naquela linha
de bolhas ultrapassaríamos a “deadline”,
então fizemos orelhas e procuramos um linha ruim
que nos colocasse no chão mais rapidamente. Seguimos
uma estrada de terra até uma pequena vila chamada
Santana Velha, onde aterrizamos num pequeno campo de futebol.
Fomos muito bem recebidos e até um bom arroz e
feijão foram servidos bem ao estilo da região.
Os locais nunca haviam ouvido falar daquele pedaço
de pano voador e por ali nunca havia passado nenhum tipo
de aeronave parecida. Perguntavam-nos se havíamos
pulado de um avião, e quando explicamos que havíamos
saído de Quixadá-CE, fizeram aquela cara
de quem está ouvindo mentira. A melhor explicação
nessas horas é sempre a mais rápida de se
entender, portanto dizíamos que um vento muito
forte havia nos levado para lá, em parte era uma
grande verdade.
Sem
dúvida esportes como o vôo-livre parecem
muito imprevisíveis, pois só conseguimos
enxergar as cicatrizes deixadas pelos fluxos, mas nunca
enxergamos os fluxos em si. Talvez por isso seja tão
incompreendido por todos e encarado como um esporte tão
perigoso. “É muita coragem...” –
a frase mais falada na vila. De fato para quem não
pratica deve ser loucura. Afinal passamos mais de dez
horas pendurados naquelas linhas a milhares de metros
do chão, tomando centenas de decisões, dentro
de uma massa que mal enxergamos. Em Quixadá comparo
o início do vôo a um rafting, onde a única
opção é seguir a correnteza. Mas
por mais que pareça uma loucura, existe muito estudo
e conhecimento por trás.
Seguimos
o plano. Decolamos no coração do Ceará,
sobrevoamos todo o estado do Piauí e chegamos muito
próximos a região amazônica no Maranhão.
Cruzamos uma grande parte do sertão nordestino.
Os três juntos. A quebra desse recorde não
é simplesmente o rompimento de uma barreira numérica,
mas também a prova de que o vôo-livre não
necessariamente precisa ser um esporte individual e egocêntrico.
Nosso sonho de trabalhar em equipe funcionou. E a equipe
não se resume apenas aos pilotos no ar, não
podemos esquecer de nosso digníssimo resgate Dioclécio,
o Dió, e da SOL Paragliders, que desenvolveu essas
velas maravilhosas e nos apoiou muito na conquista.
Quando
decidimos voar juntos, sabíamos das adversidades.
Somos totalmente programados para competição,
portanto nunca olhamos para o piloto ao lado como nosso
companheiro, e sim como nosso adversário que devemos
em algum momento dispensá-lo. As vitórias
são individuais e não existe espaço
para mais de um piloto nos degraus do pódio. Quando
iniciamos nossa busca pelo recorde em Outubro, me peguei
em diversos vôos competindo com meu companheiro
Cecéu, quando na verdade deveria apenas ajudá-lo
e ser ajudado. É sempre muito mais fácil
para todos voar em grupo, mas o difícil é
transformar esse grupo em um time. Frank em pouco tempo
voando ao nosso lado, entendeu nossa filosofia e já
fazia parte dela. Foi uma filosofia também iniciada
por André Fleury e Marcelo Prieto, e estamos todos
extremamente realizados por ter tido a oportunidade de
colocá-la em prática de forma tão
perfeita e harmônica, culminando em um Recorde Mundial
de Distância Livre.
A
Expedição XCNordeste 2007 finalmente chega
ao fim. Foram 31 dias investidos em Quixadá, Ceará,
Brasil. Três recordes importantes batidos, dois
sul-americanos e um mundial de distância livre.
Quatro vôos muito importantes (397 km, 414 km, 398
km e 461 km). Mais de 3.000km voados e mais de 8.000km
rodados pelo nosso resgate. Sem dúvida um sucesso.
Tenho certeza de que após anos investindo pesado
nas Expedições XCNordeste, Ary Pradi deve
estar muito satisfeito, afinal três pilotos da equipe
SOL, voando os novos Tracer 11, realizaram um feito inédito
no parapente mundial, 461 km juntos.
A
SOL, o Ary e os pilotos merecem.
A
equipe SOL gostaria de prestar um agradecimento muito
especial a Cláudio Henrique Landim de Fortaleza
por todo o seu apoio durante a Expedição
XCNordeste 2007.
Abraço
a todos e que venham os 500km... Até 2008...
Rafael
Saladini