| DEPOIMENTO DO RECORDISTA
RAFAEL SALADINI SOBRE SUA EVOLUÇÃO METEÓRICA
E SEUS PLANOS PARA O FUTURO.

Infelizmente o vôo-livre é um esporte de oportunidades.
So se desenvolve aquele que tem oportunidade não só
de voar, mas voar com pilotos melhores e que saibam o que
estão fazendo. Não existem autodidatas que aprendem
tudo longe de todos. Não adianta ter dinheiro, tempo
e vontade apenas; é necessário controlar a ANSIEDADE
e buscar informações com quem SABE. Quem quer
aprender rápido, corra para as competições,
quem não quer competir, muita calma nessa hora.
Um grande exemplo disso sou eu mesmo. Enquanto tive apenas
vontade, recursos e tempo, voei muito, MAS nao tenho nem coragem
de listar as situações de perigo que me coloquei.
Sempre tive meu primo Rodrigo Monteiro como meu orientador
e conselheiro. Mas minha ansiedade de acompanha-lo e chegar
no topo do esporte rapidamente, quase me custou caro diversas
vezes. ANSIEDADE pura.
Tive a sorte de aprender com um piloto que já tinha
acesso aos melhores do Brasil. Com muita curiosidade e determinação,
me alimentei de pequenas informações e observações
que me foram passadas. Meu desenvolvimento talvez tenha sido
o mais rápido entre os pilotos brasileiros da ultima
década. Tudo porque estive inserido num grupo seleto
de pilotos que levam o parapente extremamente a serio, alem
de uma dedicação ENORME da minha parte. Informações
que eles demoraram anos para adquirir, me passaram ali, mastigado
e em poucos campeonatos. E ainda sei MUITO pouco.
Enxergo a evolução dentro do esporte como um
simples dia de vôo. Cada dia é um dia, como cada
piloto é cada piloto. Temos que nos adaptar dentro
das nossas limitações, talentos e potencial.
Nao adianta querer andar mais rápido que o ciclo do
dia, e muitas vezes esperar o tempo passar significa chegar
na próxima térmica justo no momento exato para
subir.
O Brasil é talvez o melhor país do mundo para
aprender a voar. Nao somos obrigados a encarar as ''corredeiras''
perigosas dos Alpes e muito menos as roubadas da África
do Sul. Voamos o ano inteiro e temos ''ondas'' dos mais variados
tamanhos para cada tipo de surfista. Cada região do
nosso país pode ser vista como um degrau na evolução,
e assim existe uma escada que podemos montar, precisamos apenas
entender o que cada uma significa para nosso esporte.
Sou do RJ, e aprendi a voar em São Conrado e Petrópolis,
só MAROLAS. Tive a sorte de participar de competições
pelo mundo a fora e enxergar que voar era muito mais que dominar
meu sitio de vôo. Era preciso ter um visão holística
de como tudo funciona e assim poder voar com segurança
em qualquer lugar. Uma busca que nunca termina. O Frank Brown,
com 27 anos de vôo e aquele Pentium 58 que tem na cabeça,
ainda busca isso. Arrogância é um passaporte
para a morte.
Quem está afim de aprender a voar XC, mas odeia competições,
existe um caminho muito claro na minha cabeça, onde
cada lugar representa um passo importante para a evolução.
Não esquecendo de um ponto importante: apesar de São
Conrado e Quixadá serem lugares muito diferentes, cada
um tem seus perigos, e burro é aquele que nao entende
isso. Eu hoje tenho +1000 horas de vôo, mas se eu desmerecer
o risco de São Conrado, amanha posso virar noticia
de jornal.
Vamos planejar melhor nossa evolução. Nada de
ansiedade. Aprendi isso me explodindo como um tomate na rampa
de Andradas aos 16 anos. Me custaram 6 meses na cama e 3 anos
de trauma sem voar. A partir dai, voei de dhv 1/2 durante
2,5 anos, depois voei 100 horas de puro XC de dhv 2 em Cambuquira,
Sapiranga, Tangara, e ate ensaiei um Araxá.
Com 200 horas de vôo, fiz meu primeiro 80km, mas não
sabia absolutamente nada ainda. Peguei um 2/3 e fui pra Vale
de Bravo no México. Tomava tanta fechada que tomei
um puxão de orelha do Frank: Ou para com isso, ou volta
pro dhv 2 cara!! Desenvolva suas fraquezas ou simplesmente
aceite suas limitações!!!
Foi ai que resolvi investir pesado, pegando outro 2/3 e percebi
que faltava MUITO ainda pra ser um bom piloto. Decidi então
passar MESES em Araxá-MG respirando TUDO o que os mestres
locais do XC me passavam. Bruno Newmann, Branco, Du, Nasser,
Caio Porfírio, pessoas que formaram a minha base de
XC. Total de umas 250 horas de 2/3 que foram o INICIO de uma
jornada. Foi ali que fiz meu primeiro 200km. Fora inúmeros
150km em Goval, Jaraguá e outros.
Considero Araxá como a melhor opção para
aprender a voar XC numa condição que pode ficar
perigosa, mas que em media aceita muitos erros. Um grande
começo para quem quer aprender a voar no ventão.
Quem nunca voou no Cerrado, ou nunca pegou um Tangará-SC/Cambuquira-MG
clássico, e SOUBE APROVEITAR a condição,
para que voar no Sertão??
De Araxá, fui investir em Brazilia e Jaraguá-GO.
Pra mim o cerrado goiano é o segundo GRANDE passo para
aprender a voar XC em condições extremas. A
idéia de voar em roubada e lugares que podemos virar
lenda, começa a ser mais presente daqui em diante.
A potencia do vôo em Brazilia, a decolagem de Jaraguá,
BAGAGEM.
Se viajar pra varios lugares é um problema, eu investiria
em BH. Lugar forte, técnico e que ensina muito pra
qualquer piloto. Com os quase 300km de lá, o bahiano
se investir em Quixadá vai longe.
Somente depois de acumular muitas horas de vôo nesses
3 lugares no cerrado, foi que resolvi investir nas ondas gigantes
do Sertão. Mesmo assim, cheguei em Patu -2006 completamente
cru (450h de vôo). Andre Fleury me ensinou a decolar
de novo em condição de ventão. Voei de
Synergy 2 no começo ate me adaptar ao lugar. Depois
de uns 20 dias em Patu foi que o Ceceu resolveu me ensinar
a voar 300km, me dando a mão ate os 324km. Com essa
postura conservadora, fui ganhando uma confiança muito
solida nas minhas decisões e no final da temporada,
mandei um 338km e 370km completamente sozinho. Um sonho que
sempre tive.
MESMO ASSIM, em 2007, ainda no avião indo pra Fortaleza,
me questionei MUITO sobre voar com a minha primeira vela de
competição no sertão. Questionamento
que não me deixou dormir a primeira noite. Mas a minha
BASE HISTORICA era tão boa, tão solida, que
logo no primeiro vôo, quebrei o sulamericano com 397km.
E depois vieram mais vôos gigantescos inesquecíveis.
Dropar as ondas grandes de Quixadá pode parecer inicialmente
fácil. É como voar vela de competição,
onde tudo é uma maravilha até ela começar
a fechar e a girar. Para a nossa sorte, Quixadá tem
MUITO VENTO. Caso contrario, seria praticamente impossível
voar ali. A capacidade do sertão de acumular calor
na sua vegetação e relevo é uma das maiores
do mundo. O vento serve como um MODERADOR, organizando os
ciclos e nao deixando o calor se acumular demasiadamente num
local para depois subir a 55m/s totalmente over. MAS isso
é um regra somente em zonas expostas ao vento, o que
NÃO é o caso dos rotores, que desprendem o calor
de forma extremamente desorganizadas e em bolhas de diferentes
intensidades que passam a ser zonas mortais em qualquer hora
do dia. A vela de competição ai começa
a girar.
Aprender a navegar ali tem dois jeitos: buscar com quem já
sabe (foi o que eu fiz), ou o puro empirismo (pode ser perigoso).
Ambos os casos, o piloto deve já ter uma bagagem grande
de situações adversas. Nosso esporte NUNCA é
um ciência exata.
E por isso eu enxergo hoje com uma nitidez muito profunda
que não adianta ser ansioso. Temos primeiro que ter
consciência do nível em que estamos, para depois
entender o que de fato QUEREMOS do esporte. Assim fica MUITO
mais fácil visualizar a escada e saber AONDE VOAR e
COMO VOAR. Cada lugar tem um potencial e investir num local
acima das suas habilidades significa que você não
foi capaz de visualizar a escada ou não foi capaz de
controlar a própria vaidade.
Hoje passo por um grande teste. O teste da vaidade. Sou recordista
mundial com 25 anos e 5,5 anos de vôo e tenho freqüentado
o circuito mundial. Com todos os melhores pilotos do mundo
me enaltecendo pelo feito, meu ego sobe junto comigo a cada
bomba para estratosfera e a cada pisada no acelerador, mas
ate agora tenho controlado muito bem o tal complexo de superman
que sempre surge de tempos em tempos.
Tive como grande lição o ultimo PWC na Espanha,
com a morte de um amigo russo(voava no himalaya), 5 pilotos
com vértebras quebradas, dois com costelas e braços,
14 reservas. E eram os melhores do mundo ali. Foi ai que me
perguntei: O que eu quero desse esporte?? Dependo dele pra
viver?? Pra que jogar no buraco e acelerar daquele jeito na
chegada de goal?? Pra ganhar um tapinha nas costas?? Quais
são as minhas prioridades?? Vôo-livre a qualquer
custo?? Não...
Eu vôo porque gosto. Não vou pro Himalaya voar
amanhã, porque sei das minhas limitações.
Não tenho habilidade pra voar lá ainda. Gostaria,
mas seria começar TUDO de novo, e isso seria um novo
longo capítulo, lá pela Índia, na minha
historia de voador.
Bons vôos,
Rafael Saladini
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