| Os
sacos de batatas voadores
Isaias Malta da Cunha
Olhos são bons para coisas que se pode
ver, no entanto um piloto de vôo
livre enfrenta algumas coisas invisíveis, o ar, as
térmicas, as descentes,
as turbulências, etc.
Então o piloto deve se valer de uma
outra visão, uma vista adormecida que
todos possuem e não se usa.
Com o tempo de vôo a gente se dá conta que faz
um IMAGEM MENTAL da térmica.
Com o decorrer o tempo o piloto passa a perceber sua vela
analogamente ao
que faz um cavaleiro com seu cavalo, acaba conhecendo todas
as suas reações.
Quando um vôo está escasso de
ascendentes e percebo que a atividade
intelectual e a falta de respiração estão
atrapalhando, tento aplicar a
tática da vadiagem. Vadiar significa se deixar levar
para onde o paraca quer
ir e respirar profundamente para me tornar o corpo mais leve.
O paraca sempre será atraído
por uma térmica, a exemplo das folhas soltas ao
vento que giram até a nuvem ou daqueles danados pilotos
novatos que batem em
todas as térmicas do caminho. Os alunões e as
folhas seguem à risca a
técnica do relaxamento, eles não têm nenhum
conflito, estão inteiros naquilo
que fazem e sabendo-se que as correntes ascendentes criam
vórtices do sucção
nas suas redondezas, qualquer objeto que estiver boiando por
perto será
necessariamente atraído, desde que um piloto estressado
não esteja segurando
as cordinhas do seu parapente empurrando-o para fora.
Uma regra básica do vôo parapentístico
é que sempre o parapente aproa o
vento. Na medida em que uma ponta do velame entrar na térmica,
a tendência
irresistível do parapente é girar para o lado
certo e entrar inteiro nela.
Se o pilotos fossem sacos de batatas, certamente os parapentes
miolariam as
térmicas com muito mais facilidade e girariam da maneira
certa, etc.
Muitos companheiros nossos que morreram devido
a colapsos impostos pela
turbulência atmosférica estariam vivos se fossem
sacos de batatas. Explico:
na luta contra um parapente enfurecido usando a velha lei
do Talião "Olho
por olho e dente por dente", o piloto quase sempre acaba
perdendo olho ou
dente porque ele sempre é o lado mais fraco.
Até na turbulência é necessária
uma certa dose de vadiagem. É muito saudável
que o piloto tenha uma visão interna para perceber
os mínimos comportamentos
da sua vela, para que ele antecipe os acontecimentos e tome
as medidas
corretivas. A natureza dá avisos suas agressões
gritando no ouvido do
piloto. Um piloto com os ouvidos atentos e a visão
interna bem afiados
simplesmente deixa-se levar... Sim, ao invés de lutar
contra aquelas
toneladas de fluído aéreo, ele deixa-se levar
como a folha seca na
correnteza forte, que rodopia mas não afunda. Há
que se aprender a dançar de
acordo com a música. O corpo de um piloto é
o contrapeso do paraca, seu
ponto de gravidade. No momento em que o piloto entender que
o que ele faz
com o corpo é muito mais importante do que ele faz
com as mãos, ele terá
atingido um ponto de equilíbrio na sua pilotagem não
precisando recorrer a
"braços de estivador" que são aquelas
"batocadas" enlouquecidas e
descoordenadas, que geralmente provocam colapsos incontroláveis.
Quando estou vadiando "vejo" onde
está a próxima termal. Não que a veja
com
os olhos físicos, existe uma vontade de ir para lá.
Quando a vontade de sair
de um lugar é muito grande, significa forte descendente
ou turbulência "a
vista".
Esta é a minha viagem. Este é
o meu vôo, um vôo simultâneo em dois mundos,
o
externo onde o céu, os ventos, o relevo e as nuvens
comandam e o interno
onde pululam as sensações, as angústias,
os êxtases e os pesadelos. Voar com
equilíbrio através destes mundos é o
cross country da vida.
Isaias Malta da Cunha
APCO bagheera
Bento Gonçalves - RS
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