| Como
funciona o GPS ?
Embora
este não pretenda ser propriamente um tópico
de discussão, e abundem pela Internet várias
artigos sobre este assunto específico, achei que o
Portal PPC também já merecia ter o seu próprio
artigo, em português, sobre o funcionamento do GPS.
Embora mantenha na íntegra o texto e considerações
originais, esta 2ª Edição do tópico
foi aumentada com o propósito de incluir agora maior
detalhe na descrição de alguns pontos e, tanto
quanto possível, representar e justificar graficamente
os raciocínios e cálculos envolvidos de forma
dar uma noção mais clara dos fundamentos trigonométricos
que servem de base a toda a implementação do
GPS (ou de qualquer outro sistema semelhante), tanto no que
diz respeito ao cálculo matemático de uma posição
espacial em 3D, como na determinação dos efeitos
da dilatação do tempo previstos pela Teoria
da Relatividade de Einstein.
Este tópico dá, por opção pessoal
minha, um especial destaque ao facto de o GPS recorrer, e
a vários níveis, à extrema importância
do simplicíssimo e velhinho Teorema de Pitágoras
e do polivalente triângulo rectângulo:
"O
quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados
dos catetos"
O
que é o GPS ?
O sistema GPS (Global Positioning System) é composto
actualmente por 24 satélites activos e 3 de reserva
colocados numa órbita a 20.200 km de altitude, e distribuídos
por 6 planos orbitais diferentes para que qualquer ponto da
superfície da Terra esteja, em qualquer momento, "em
linha de vista" com pelo menos 4 satélites.

Imagem: Garmin
Inicialmente
criado com intuitos exclusivamente militares e gerido pelo
Departamento de Defesa do Estados Unidos foi definitivamente
aberto à utilização pública no
ano 2000. E a partir dessa data ficou disponível para
todos a capacidade de determinação da posição
geográfica e de navegação entre quaisquer
dois pontos da superfície terrestre.
Este
sistema, bem como os seus equivalentes, o europeu Galileu
e o russo Glonass, recorrem a um processo geométrico
de trilateração (e não "triangulação"
como é frequente ler-se, erradamente, em vários
documentos, livros, etc. Com efeito, este processo mede lados,
as distâncias do objecto a cada um dos satélites
e não os ângulos entre si. Não se procede
a qualquer medida dos ângulos!)
Desde
Agosto de 2000 que, graças à introdução
do WAAS (Wide-Area Augmentation System) que a precisão
do GPS é inferior a 2 metros. E com o recurso ao DGPS
(Differential GPS), utilizando emissores fixos, na superfície
terrestre, essa precisão pode atingir 1 centímetro!
O
sinal emitido pelos satélites para utilização
civil, no canal primário L1, é transportado
por uma onda de rádio na frequência de 1575.42
MHz.
Como
é medida a distância do receptor aos satélites
do GPS?
Tudo se resume a medir o tempo que o sinal emitido por cada
satélite demora a atingir a nossa antena receptora.
A velocidade a que este sinal se propaga pelo espaço
vazio é, obviamente, de (cerca de)300.000 km/s. Depois
é só multiplicar esta velocidade pelo tempo
medido e obtemos a distância.
Então
qual é o problema?
O
problema é a enorme precisão exigida para se
poder medir o tempo decorrido desde a emissão do sinal
até à sua chegada ao receptor. É que
estamos a falar da velocidade da luz ! E se o sinal viaja
a 300 milhões de metros por segundo, então,
para obtermos medições de distâncias com
a precisão de 1 metro é preciso conseguirmos
medir o tempo com uma precisão na ordem dos 0,000000003
segundos (entre 3 e 4 nanossegundos)!
Para
medir diferenças temporais dessa ordem é necessário
que todos os intervenientes, os satélites e os receptores,
disponham de relógios extremamente precisos. Os satélites
cumprem esse requisito pois possuem relógios atómicos
caríssimos, mas os nossos receptores dispõem
apenas de vulgares relógios de quartzo. Para ultrapassar
esse inconveniente o sistema GPS recorre a um artifício
engenhoso: faz com que o relógio do nosso receptor
esteja constantemente a ser actualizado com a hora atómica
transmitida pelos satélites do sistema GPS. De facto,
o nosso PDA, telemóvel, ou qualquer outro equipamento
que esteja ligado a uma antena de GPS apresenta a hora absolutamente
correcta. Nenhum relógio de pulso, por mais caro que
seja, poderá competir com a precisão deste relógio
atómico em que o nosso PDA se transformou!
De
um satélite que esteja colocado exactamente por cima
da nossa cabeça - ou seja, à mínima distância
possível de 20.200km- o sinal demorará cerca
de 0,0673 segundos (20.200/300.000) a chegar-nos. O sinal
de um segundo satélite, colocado perto do horizonte
terrestre à máxima distância (teórica)
possível para estar em "linha de vista",
ou seja, a cerca de 25.800km de distância de nós,
demorará, em teoria, cerca de 0,0860s (25.800/300.000)
a atingir o nosso receptor.
No entanto estes são os casos extremos. Os 4 satélites
necessários estarão necessariamente em posições
intermédias destas e mais próximas entre si.
Considerando um exemplo em que um satélite esteja a
45º do horizonte estará à distância
de cerca de 21.683 km e o sinal demorará 0,0723s até
chegar ao nosso receptor.
Saber
a que distância estamos de cada satélite chega
para sabermos a nossa posição?
Claro que não. Primeiro é preciso sabermos onde
está cada satélite. Como podemos saber isso?
São os próprios satélites que nos dizem.
Cada um deles comunica ao nosso receptor, um almanaque com
a sua posição no espaço em cada momento
para podemos determinar a nossa própria posição.
Quantos
satélites são necessários para determinar
a nossa posição?
Em teoria, três! Mas leu algures que são necessários
quatro? Bom, na prática são usados quatro. Vejamos
melhor porquê...
Com
um satélite do qual conhecemos a distância a
que está de nós, apenas nos é possível
dizer que a nossa localização é um ponto
qualquer sobre uma esfera imaginária com raio igual
a essa distância:

Ainda sabemos muito pouco sobre a nossa localização.
As possibilidades são em número infinito, distribuídas
por uma superfície esférica, em 3 dimensões
espaciais.
Mas
se conhecermos também a distância a que estamos
de um segundo satélite, já nos é possível
afirmar que a nossa posição é um ponto
qualquer sobre a circunferência imaginária que
resulta da intersecção das duas esferas:
Agora as possibilidades, embora sejam ainda em número
infinito, já estão limitadas ao plano da circunferência,
em duas dimensões.
Com
um terceiro satélite, a intersecção desta
última esfera com a circunferência reduz a ambiguidade
sobre a nossa localização a 2 pontos. Mas como
um dos pontos pode ser eliminado pela simples razão
de se encontrar no espaço e nós sabemos estar
na superfície da Terra...
...está
encontrada a nossa posição
De facto o terceiro satélite é suficiente para
determinar o ponto onde nos encontramos. Mas então...
Para
que serve o quarto satélite ?
Primeiro que tudo: dispensa a utilização do
raciocínio atrás descrito. O quarto satélite
permite "escolher" um dos 2 pontos anteriormente
determinados e sabermos, além da latitude e da longitude
(duas dimensões), a altitude exacta da nossa localização.
Mas,
mais importante: permite verificar se existe o essencial sincronismo
de todos os relógios.
De
facto, se as medidas que o nosso receptor fez das distâncias
forem perfeitas - com o seu relógio perfeitamente sincronizado
com os dos satélites - então as 4 esferas intersectam-se
num único ponto. Mas se as medidas forem imperfeitas,
isso não acontecerá.
Então
o receptor, alertado para o erro pela quarta medição,
aplicará o factor de correcção necessário
para que as 4 esferas se intersectem num único ponto.
E
é nesta altura que passamos a ter na nossa mão,
como bónus, um relógio tão preciso quanto
os mais caros relógios atómicos!
Como
são calculadas as distâncias ?
Como se viu antes, a determinação da nossa posição
depende de um simples método geométrico de trilateração
que se resume à medição das distâncias
até três ou quatro pontos de referência,
cuja posição é conhecida, os satélites
do sistema GPS.
Como
não é possível esticar uma fita métrica
desde o nossa posição na Terra até cada
um dos satélites, é necessário determinar
a distância doutra forma. No caso vertente, medindo
o tempo que um sinal - de velocidade conhecida - demora a
chegar até nós
e
aplicando a trivial fórmula:
ou seja,
em que, v = velocidade, e = espaço, t = tempo
A
distância e, entre o nosso receptor e cada um dos satélites,
é a incógnita que se pretende determinar. A
velocidade v, será neste caso a da luz, constante e
conhecida. Mas o tempo t, decorrido entre a "partida"
e a "chegada" do sinal, terá que ser calculado
pelo nosso receptor de GPS. E é precisamente na medição
precisa deste lapso de tempo que reside uma das dificuldades
práticas da implementação do GPS dado
que ela é afectada por diversos factores que a podem
falsear !
Nota:
Adaptando esta fórmula ao caso específico do
GPS temos Pr = c(TS-TR) o chamado pseudorange que dá
uma estimativa aproximada da distância a que o satélite
se encontra do receptor.
O
que pode provocar imperfeição das medições
?
Existem vários factores que podem afectar a exactidão
das medições e, consequentemente, a determinação
da posição precisa do receptor:
| Ionosfera |
até
5m |
| Dados
da Efeméride |
até
2,5m |
| Desvio
dos relógios |
até
2m |
| Reflexos |
até
1m |
| Troposfera |
até
0,5m |
A
velocidade (c) de propagação do sinal é
diminuída ao atravessar a atmosfera. As duas camadas
com interferência na forma de propagação
da radiação electromagnética são
a ionosfera - por ser composta por átomos ionizados
pela radiação solar - e a troposfera - por conter
alto teor de humidade. Este efeito é imprevisível
e é tanto maior quanto mais próximo o satélite
estiver do horizonte. É usualmente corrigido pela aplicação
de modelos, pela utilização de duas frequências
diferentes (L1 e L2), etc.
A
desactualização temporária dos dados
transmitidos, uma vez que os almanaques são emitidos
pelos satélites apenas a cada 12 minutos e meio e as
efemérides a cada 30 segundos, também pode diminuir
a precisão do GPS. O mesmo acontece devido aos eventuais
e imprevisíveis reflexos do sinal provocados por edifícios
altos, pela orografia do terreno circundante, etc.
Outro
dos factores que afectam a exactidão das medições
é o efeito relativístico da dilatação
do tempo, previsto pela Teoria da Relatividade de
Einstein.
E este é aquele cuja correcção é,
na minha opinião, de longe a mais interessante. Que
mais não seja porque, ao contrário do que acontece
com os outros factores, neste caso o erro provocado é
acumulável; e se não fosse corrigido provocaria
erros absolutamente inaceitáveis tornando o GPS completamente
inútil mesmo para a menos exigente das utilizações.
Efectivamente,
a Teoria da Relatividade Restrita (TRR),
prevê que um relógio em movimento em relação
a um sistema de referência - a Terra, neste caso - funcione
mais lentamente que um relógio (absolutamente idêntico)
colocado na superfície da Terra e que essa diferença
será tanto maior quanto maior for a velocidade relativa
do relógio em movimento.
Nota
importante: Tanto o relógio em movimento como o relógio
"em repouso" apresentam medições correctas
do tempo... no seu próprio sistema de referência.
Um hipotético astronauta, a bordo de um satélite
do sistema GPS veria a sua vida decorrer a um ritmo absolutamente
normal. Ele demoraria exactamente o mesmo tempo a ler um livro
que levaria na Terra. O seu tempo de vida seria o mesmo. O
tempo medido por um relógio em movimento só
é mais lento do ponto de vista de um observador noutro
sistema inercial, que usa o seu próprio relógio
como referência para a comparação.
Por
seu lado, a Teoria da Relatividade Geral (TRG) prevê
que um relógio colocado sob a influência de um
campo gravitacional (como o da Terra) funcione mais lentamente
que um outro relógio colocado fora da influência
desse campo.
Ou
seja: o efeito da "dilatação cinética
do tempo" prevista pela TRR tende a fazer o relógio
de um satélite GPS mais lento que o relógio
do nosso receptor, mas por outro lado, o efeito da "dilatação
gravítica do tempo" tenderá a fazê-lo
mais rápido que o do nosso receptor. O efeito conjunto
faz com que o relógio do satélite se atrase,
em relação ao "tempo da Terra" cerca
de 38ms (milissegundos) por dia.
Se
esta diferença não fosse levada em conta, a
Relatividade faria - considerando apenas o rápido movimento
dos satélites e a acção da gravidade
- com que fosse acumulado um erro de posicionamento do GPS
da ordem dos 11.524 metros por dia (c x 38ms).
Um erro absolutamente inaceitável !!!
Para
ver uma demonstração matemática, mais
pormenorizada, clique aqui (Nota: Será redireccionado
para fora do Portal PPC. Use os botões do seu browser
para regressar).
Como
é determinada a posição do receptor ?
Uma vez conhecidas as distâncias a cada um dos satélites
há que calcular as coordenadas tridimensionais da posição
do nosso receptor: XR, YR e ZR.
Para
isso há que recorrer novamente... ao Teorema de Pitágoras
e ao maravilhoso e polivalente triângulo rectângulo!
Como
se pode constatar em alguns sites dedicados ao tema do GPS,
a fórmula utilizada na determinação da
posição poderá ser semelhante a esta:
c(TS-TR)
= ((XS - XR)2 + (YS - YR)2 + (ZS - ZR)2)1/2
em
que c = velocidade da luz,TS = tempo da emissão, TR
= tempo da recepção,
XS, YS, ZS = posição do satélite, e XR,
YR, ZR = posição do receptor.
Nota: o produto c(TS-TR) constitui o chamado pseudorange.
mas
o que normalmente não se explica é o porquê
desta fórmula. Vamos ver...
Os
parâmetros conhecidos são TS (a hora de emissão
do sinal), XS, YS, ZS (a posição do satélite)
e, claro, a velocidade do sinal c (299792,458 km/s).
As
incógnitas são quatro : XR, YR, ZR (a posição
do receptor) e TR (a hora de recepção do sinal).
Quatro
incógnitas => quatro equações = >
quatro satélites
Primeiro
que tudo há que estabelecer um sistema de coordenadas
cartesianas. O GPS utiliza um sistema ECEF (Earth Centered
- Earth Fixed) - mais concretamente o WGS-84 - em que, como
o próprio nome indica, se considera que o sistema de
coordenadas tem origem no centro de massa da Terra e, estando-lhe
fixo, roda com ela.

No ECEF, o eixo "vertical" (o eixo de rotação
da Terra) é o dos ZZ, o eixo dos XX é a interseccção
do plano do meridiano principal (de Greenwich) com o plano
do Equador
Para
aumentar a clareza da imagem vamos "tirar a Terra da
frente" e projectar a posição do satélite
e do receptor, por agora apenas em 2D, no plano XY (rodando
os eixos apenas para manter a orientação, mais
familiar, de um sistema cartesiano a duas dimensões:
com o eixo dos YY na vertical e dos XX na horizontal).

E
agora vamos utilizar o Teorema de Pitágoras para determinar
a distância h, no plano XY, entre o satélite
S e o receptor R.
ou seja: h = ((XS - XR)2 + (YS - YR)2 )1/2
E
o passo seguinte - uma nova aplicação do mesmo
Teorema - permite-nos determinar a distância SR.
Vendo "por cima", para ficar mais claro...

ou
seja: SR = (h2 + (ZS - ZR)2)1/2
donde
que
SR
= ((XS - XR)2 + (YS - YR)2 + (ZS - ZR)2)1/2
ou,
como acima:
c(TS-TR)
= ((XS - XR)2 + (YS - YR)2 + (ZS - ZR)2)1/2
Nota
final:
É
evidente que existem outros cálculos matemáticos
mais complexos envolvidos na implementação prática
do GPS, nomeadamente no que diz respeito aos modelos a aplicar
p.e. para corrigir os efeitos do atravessamento da troposfera
e da inosfera, à conversão de coordenadas entre
ECEF e ECI, etc.
Os
cálculos e raciocínios atrás descritos
permitem no entanto ter-se noção dos fundamentos
trigonométricos que servem de base a toda a implementação
do GPS ou de qualquer outro sistema semelhante.
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