Lidando
com fechadas
Por Rob Witthall
Traduzido por Vital Holmo Batista - CSMVL
Elas
acontecem a todos nós de tempos em tempos e todos os
parapentes são
susceptíveis a tê-las. É sem dúvida
uma das causas principais de acidentes
mas freqüentemente não é a fechada que
realmente causa o problema, é a
reação do piloto em tentar controlar a situação.
Nesses
anos de meu envolvimento com o paragliding eu testemunhei
muitos
acidentes e incidentes, alguns deles levaram a ferimentos
sérios mas em
muitos dos casos os ferimentos poderiam ter sido evitados.
Uma
vez que você tenha tomado uma fechada, a sua reação,
ou às vezes falta
da reação, é crucial para a recuperação
de sua asa, então vamos examinar
mais de perto o que acontece realmente durante uma fechada
e
conseqüentemente sua melhor linha de defesa para evitar
um incidente sério.
O Cenário
Nosso piloto, Edward, tem aproximadamente 300 horas de vôo,
distribuídas em
quatro anos. Voa um parapente DHV 2 desde o ano passado, e
tem agora
aproximadamente 50 horas nele. Seu recorde de cross-country
foi 65km nos
Alpes feitos no último verão. Ele só
consegue voar nos fins de semana e
feriados, para frustração de sua esposa. Ele
se sente relativamente feliz
voando em condições termais a menos que esteja
turbulento, quando então ele
começa a ficar um pouco nervoso.
Edward
levanta-se tarde no dia em questão e engole seu café
da manhã
rapidamente antes de apressar-se para decolar o mais cedo
possível.
* Ele não se incomoda em verificar a previsão
do tempo porque é um dia de
céu claro de primavera que parece excelente para o
vôo e ele não quer se
atrasar ainda mais para a decolagem.
Quando
Edward decola ao meio-dia há apenas uma brisa leve
no rosto e as
primeiras térmicas são agradáveis, lisas
e calmas. Mas após uma hora no ar o
dia começa a mudar rapidamente e as térmicas
tornam-se fortes, e mesmo um
pouco violentas.
* Embora não esteja apreciando muito ele decide continuar
voando porque está
desesperado para quebrar seu recorde pessoal de 65km.
* Seu parceiro de vôo, Winston, está voando somente
alguns quilômetros
adiante e de modo algum ele vai deixar Winston bater seu recorde
pessoal.
Voando
sobre os picos, Edward começa a ter problemas, ele
sente que o vento
aumentou e as térmicas estão agora fortes, quebradas
e violentas.
* Edward sente as palmas das mãos suarem, seu coração
se acelera e começa
aquela sensação em seu estômago de que
ele não gosta.
* Ele se torna nervoso e tenso, suas reações
normalmente suaves se tornam
movimentos bruscos enquanto a asa voa através da turbulência.
* Ele começa a sentar-se ereto e para frente em sua
selete. Não sabe porque
faz isso mas sempre faz quando começa a ficar chacoalhado,
com ventos fortes
ou quando fica com medo.
Então
um grande colapso acontece, o bordo de ataque dobra-se por
baixo
enquanto o ar turbulento engolfa sua asa e a desinfla. 60%
da asa dobra por
baixo e para trás antes mesmo que ele possa pensar.
O coração de Edward está
agora a ponto de explodir enquanto uma onda de medo percorre
sua mente e seu
corpo.
* Reaja, reaja é seu único pensamento e assim
ele afunda no freio esquerdo
para contrapor a asa direita esvaziada. Sua reação
é extremamente agressiva,
ele puxa demais o freio e consequentemente ele sem querer
estola e negativa
sua asa. Está agora em algum tipo irreconhecível
de estol / negativa.
Frenético, libera o freio e a asa dispara para frente
abaixo do horizonte
tão rapidamente que ele acha que cairá direto
dentro dela. Ele afunda ambos
os freios para tentar controlá-la e outra vez a asa
cai atrás dele. Edward é
agora uma confusão apavorada de braços e pernas
balançando.
* Tempo e a altura crucial é perdida enquanto ele cai
através do ar tentando
descobrir que raios sua asa está fazendo enquanto ela
dispara para frente,
para trás e para os lados.
Smack,
crunch, crack, Edward volta à mãe terra e seu
recorde pessoal de 65
quilômetros agora irá perdurar para sempre!
O
Diagnóstico
O que realmente deu errado para o pobre Edward?
Dê
uma olhada atrás através do cenário e
procure pelos "*" (asteriscos) no
texto. Você encontrará rapidamente os erros dele.
Os Erros
1. Edward não verificou a previsão do tempo.
Se tivesse, ele saberia que
havia uma inversão que iria se romper no início
da tarde, explicando porque
as térmicas ficaram de repente mais fortes. Ele teria
também descoberto que
uma frente era esperada para a noite e estava previsto que
os ventos
aumentariam à tarde.
Nunca considere o tempo como garantido. É um assunto
altamente complexo e é
muito importante que nós, como os pilotos de parapente,
o compreendamos
inteiramente. Nós temos uma janela muito pequena de
vôo já que voamos tão
lentamente e sofremos fechadas em ar turbulento. Compreender
o tempo é a
condição chave para permanecer seguro. Leia
livros e estude na tevê e na
Internet. Você necessita compreender gráficos
de pressão, ponto de orvalho,
lapse rate e muito muito mais. Depois de todos os meus anos
de vôo eu ainda
estou aprendendo e eu ainda tenho profundo respeito pelo poder
da natureza.
2.
Seus ego e desejos são seus inimigos. Quando voar,
seu único objetivo
deve ser voar com segurança e apreciar o vôo;
você tem o resto de sua vida
para bater seus próprios recordes. Você nunca
deveria se empurrar além de
seu próprio limite. Seu corpo diz a você quando
isso está acontecendo
fazendo você se sentir desconfortável e nervoso,
então o escute. É um aviso
que você está entrando em uma área de
incerteza. Entre somente se você tem a
habilidade mas vá para o pouso se você não
estiver seguro.
3.
Ego novamente, desta vez envolvendo outros. Nunca tente ir
além dos seus
limites por causa de outros. Winston voa há sete anos
e tem aproximadamente
1200 horas. Ele tem voado pelo mundo afora, até em
algumas competições e foi
bem. Todos são diferentes, assim voe pelos seus padrões
não pelo de outros,
e não se compare com outros; eles podem estar além
dos limites deles também.
4.
Todos os sinais de advertência estão piscando
agora, contudo Edward
continua - este é seu erro realmente grande. Uma vez
que você parou de
apreciar seu vôo, pouse! Isto é quando nós
começamos realmente a ir além de
nossas habilidades e quando nós fazemos freqüentemente
mais e mais erros. O
medo pode obscurecer nossos julgamentos, nossas reações
podem tornar-se
aleatórias e freqüentemente incorretas e você
pode mesmo perder alguma
coordenação. Tente continuar respirando, tente
relaxar, permaneça calmo e
apenas pilote e desça até um pouso seguro do
jeito que você faz normalmente.
Descer com segurança é a melhor forma de evitar
um acidente neste estágio.
5.
Sentar-se para frente não lhe ajudará em nada;
de fato faz o oposto. Você
se moveu para uma posição anormal em uma situação
anormal. É muito mais
difícil pilotar uma asa pendurado na borda de seu assento,
é por isso nós
voamos reclinados. Isso reduz a sensibilidade e torna mais
difícil olhar sua
asa acima. Tente permanecer na posição em que
você voa normalmente, já que
esta é obviamente a posição na qual você
está acostumado a controlar o
velame. Reduza as variáveis, não as aumente.
6.
Reaja somente se você compreende a situação,
de modo que você esteja
certo de que sua reação é a correta.
Ainda hoje muita gente irá dizer a você
para conter uma fechada deslocando o peso para o lado oposto
e aplicando o
freio. Ainda que na teoria isso pareça perfeito, na
prática é uma coisa
muito difícil de se fazer corretamente.
Quando
você tem uma fechada, a carga alar aumenta dramaticamente
na parte da
asa que permanece voando, conseqüentemente a velocidade
de estol aumenta
devido à carga extra. Deslocando o peso, você
aumenta a carga da asa ainda
mais. Conforme a carga da asa aumenta, sua velocidade de estol
aumenta
também e reduz o curso do freio. A seguir, adicione
à equação o arrasto que
o lado fechado traz e você já está provavelmente
muito perto do ponto de
estol. Neste estágio muitos dos livros diriam para
adicionar freio para se
opor ao giro.
No
entanto, aplicar qualquer quantidade de freio extra neste
estágio pode
facilmente estolar a asa. De fato, se você estiver voando
já com bastante
freio (voando lentamente em uma térmica) e tomar uma
fechada grande, você
pode já estar além do ponto de estol. Você
pode ter que soltar um pouco o
freio para deixar a asa voar e impedir que ela estole.
Você provavelmente já ouviu pilotos dizerem após
um incidente "Eu mal puxei
o freio e o velame estolou / negativou". Isso é
devido à clássica
'"super-correção" que Edward experimentou
e que pode estolar a parte
restante da asa e levar a asa a uma horrível cascata
induzida pelo piloto.
Nesse
momento você está provavelmente muito assustado,
sentando-se na
posição errada e de forma alguma apto a encontrar
as habilidades motoras
suaves, precisas e controladas requeridas corrigir uma situação
como esta. A
parte irônica disso tudo é que freqüentemente
quando os pilotos se decidem a
jogar seus reservas, a asa quase sempre reabre e tenta voar
novamente,
porque quando eles largaram os controles para pegar a alça
do reserva a asa
teve uma chance se corrigir sozinha. A essa hora normalmente
é tarde demais,
já que o reserva está fora do saco e inflando.
Meu
conselho é não deslocar o peso em nada e apenas
aplicar um pouco de
freio ao lado em vôo para diminuir a rotação,
não para a parar. Na vasta
maioria dos casos a asa se abrirá inteiramente dentro
de 180 graus. Senão,
uma bombada grande e suave no lado fechado deve resolver.
Por não deslocar o
peso para o lado oposto você permite que a asa acelere
no seu próprio ritmo
e continue no sentido que quer ir. Essa energia ajuda o velame
a se
estabilizar devido à estabilidade inerente do pêndulo
que é construída em um
parapente. Em meu modo de ver é muito melhor deixar
a asa fazer isso do que
arriscar a corrigir em excesso e acabar em uma situação
muito pior do que a
que você começou.
Eu uso somente a técnica de deslocar o peso se eu estiver
perto do chão ou
em perigo de bater em alguém. No resto do tempo eu
deixo a asa fazer o que
quer até que se estabilize em alguma forma de vôo
que eu reconheça (pode ser
até um mergulho espiral) e então eu saio dela
como eu faria normalmente.
7.
Altura e tempo são perdidos em momentos como estes;
o cérebro pode estar
tão confuso que você quase se esquece de onde
está. Não gaste todo seu tempo
olhando sua asa, mantenha um olho muito atento em sua altura;
é a única
coisa importante nessa hora.
8.
Edward não jogou seu reserva! Ele tem o resto de sua
vida para desejar
tê-lo feito. Uma das razões por eu estar aqui
hoje é porque eu nunca tive
medo de usar meu reserva. Se você cair de uma altura
de mais de 100 metros e
seu reserva ainda estiver no saco, você desperdiçou
seu dinheiro. Não há
nenhuma desonra em usá-lo e eles funcionam muito bem,
então por favor use-o
se você estiver fora de controle ou muito baixo para
arriscar - É por isso
que você o carrega.
Conclusão
Minha visão não é apenas uma teoria,
é algo que eu aprendi através dos anos
testando asas, e ainda mais anos vendo isso acontecer e acontecendo
comigo.
Meu coração ainda bate forte em uma situação
de "vivo combate" mas eu
conheço a asa que eu vôo e compreendo suas reações
o bastante para ainda
poder relaxar e às vezes até apreciar o "rodeio"
se não for violento demais.
Além disso, os anos testando asas têm confirmado
realmente que, em muitas
situações a melhor coisa fazer está muito
próxima de observar e esperar até
que eu veja algo que eu reconheço.
Lembre-se
que todos os resultados de teste do DHV até o DHV 2
não envolvem
NENHUMA ação do piloto. Isso significa que a
asa se recupera sozinha - assim
não há necessidade de se fazer tanta confusão
com ela. Eu digo aos meus
amigos que não são pilotos profissionais que
a melhor coisa que eles podem
fazer em uma situação ruim é não
fazer nada até que o velame esteja em um
estado que eles reconheçam antes que tentem retomar
o comando novamente -
desde que eles tenham altura suficiente para recuperar. Eu
sei que isso soa
estranho mas realmente pode ser melhor do que reagir em excesso.
Seu
perigo maior é reagir em excesso e entrar em uma cascata
onde cada
aspecto esteja fora do normal e você não tenha
nenhuma experiência ou
treinamento para lidar com ela. Tudo bem, você foi a
um curso de SIV. Muito
bom, eu espero que você tenha tido um fim de semana
agradável e tenha
apreciado o passeio. Isto não é de modo algum
treinamento suficiente e nem
se parece com uma situação de 'combate real',
onde o inimigo invisível lança
um ataque de surpresa a 400m logo acima de um cume rochoso.
Ele lhe deu uma
amostra do que pode acontecer, sobre a água, com uma
pessoa no rádio lhe
dizendo o que fazer e quando. Você necessitaria fazer
uma vez por mês para
tornar-se proficiente em controlar e compreender essas situações.
Finalmente, uma fechada real tem uma reação
muito diferente de uma
auto-induzida.
Lembre-se,
a melhor forma de segurança ainda é permanecer
em terra se você
estiver com qualquer dúvida. Se você já
estiver voando, desça e pouse; há
sempre amanhã para ter um grande vôo. Se for
tarde demais, então tente
relaxar e não reagir em excesso; pare um momento para
examinar o que está
acontecendo, mas se você estiver baixo e em uma roubada
lance seu reserva.
Eu
sou certo que esta dica de vôo causará alguma
discussão - excelente,
mesmo se você discorda isso fez você pensar e
pensar conduz à compreensão.
Vôos
seguros a todos, Rob
Dez: 18
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