Sistemas
de Circulação Atmosférica Atuantes no
Sudeste Brasileiro
Para o entendimento do clima de uma região, é
de fundamental importância a análise da dinâmica
atmosférica atuante. Para tanto, a compreensão
não só da forma de atuação, mas
também de sua gênese e desenvolvimento sobre
o território são imperativo.
A região sudeste brasileira sofre influência
de ventos que sopram de E a NE e que têm origem nas
altas pressões subtropicais, isto é, no anticiclone
semifixo do Atlântico Sul. Esta massa de ar possui temperaturas
elevadas, trazendo esta característica térmica
para a região quando de sua atuação.
O Sudeste brasileiro é afetado por vários fatores
associados à circulação de larga escala
e locais. São eles: sistemas de Sul e Sudeste associados
a vórtices ciclônicos ou cavados em altos níveis;
sistemas organizados no Sul e Sudeste do Brasil com intensas
convecções associadas às instabilidades
causadas pelo jato subtropical; sistemas geralmente vindos
do Pacífico e que se reorganizam no Sul do Brasil,
resultado de frontogênese ou ciclogênese e sistemas
convectivos resultantes do aquecimento continental.
A circulação oceânica, combinada com a
circulação dos ventos no lado oriental das altas
subtropicais2, próximas às costas ocidentais
dos continentes nas latitudes tropicais, produz águas
superficiais frias para as latitudes tropicais - ressurgência.
Esse fenômeno é observado na costa oeste da América
do Sul, no Peru, Equador e norte do Chile. Este padrão,
entretanto é perturbado quando as temperaturas da superfície
do mar (TSM) nesta região apresentam anomalias positivas.
Esta perturbação é amplamente conhecida
como El Niño e tem sua fase madura por volta de dezembro
a março. Os efeitos do El Niño se manifestam
globalmente, através de teleconexões (propagação
de energia). Ele enfraquece o sistema de monções
na Índia, inibindo as chuvas de verão nessa
região. Constata-se também o aumento de enchentes
no oeste dos Estados Unidos em função da alteração
de um padrão atmosférico que ocorre no Hemisfério
Norte conhecido
como PNA (Pacific North America), e a intensificação
da seca no sudeste da África. (WMO, 1985). No Brasil
tais efeitos se fazem sentir em diferentes regiões
e estações do ano (Ropelewski e Halpert, 1987),
provocando chuvas intensas no Sul e intensificando a seca
no Nordeste.Constata- se que têm sido realizados estudos
abordando a variabilidade climática com ênfase
no ENOS (El Niño Oscilação Sul) mencionados
anteriormente, sobre o Nordeste e Sul do Brasil. Entretanto,
pouco se conhece sobre seus efeitos nas demais regiões
do país. Ropelewski e Halpert (1992) verificaram uma
anomalia positiva da temperatura do ar à superfície
no da região Sudeste do Brasil no mês de abril
associado ao fenômeno ENOS. Abreu et al. (1992) constataram
que em três eventos de El Niño (82/83, 86/87
e 91/92) a temperatura do ar foi acima da média nos
meses de inverno no Sudeste. Eles sugerem que nesta situação
o Sudeste do Brasil deve experimentar maior
advecção de ar quente continental. Porém,
diferentemente de Ropelewski e Halpert (1992), o máximo
de aquecimento por eles observado ocorreu no mês de
junho. Outras observações indicam que os invernos
de 1993 e 1994 foram anomalamente quentes e secos no Sudeste
(Cavalcante, 1996), sendo que, no Estado de São Paulo,
registraram- se inúmeras ocorrências de incêndios
naturais. Estes dois anos foram excepcionalmente atípicos,
pois o El Niño de 91/92 se prolongou até o verão
de 1994.
Abreu et. al., 1998, Lucio et. al., 1998, estudaram a variabilidade
climática em Belo Horizonte – MG, sugerem que
o El Niño afeta esta região do estado provocando
invernos quentes. Isto pode ser explicado pela intensa advecção
de ar quente continental devido ao bloqueio dos sistemas frontais
no sul do País. Cupolillo e Abreu, 1998a e Cupolillo
e Abreu, 1998b sugerem que os episódios de veranico
(período de seca dentro da estação chuvosa)
no Estado de Minas Gerais também são intensificados
pelos El Niño, o que afeta o semi-árido mineiro.
Vale ressaltar que os efeitos associados à fase fria
do fenômeno ENOS – La Niña, são
pouco conhecidos sobre Minas Gerais. Melo Filho, 1999, identificou
em seus estudos de variabilidade climática para o semi-árido
mineiro, uma mudança no padrão de precipitação,
também detectando a ocorrência de veranicos em
várias localidades no mês de fevereiro, sobretudo
após o ano de 1980.
COELHO, DRUMOND, SAMPAIO e AMBRIZI (1999) em estudos referentes
aos episódios extremos da oscilação sul
apontam em seus resultados, para influência deste fenômeno
de larga escala nas anomalias de precipitação
registradas no nordeste de Minas Gerais. No verão,
em anos de El Niño de forte a moderado, as anomalias
negativas chegam a 100 mm. Em anos de La Niña de forte
a moderada, as anomalias negativas chegam a 200 mm. No outono,
em episódios de El Niño e La Niña de
forte a moderados e La Niña fraca, as anomalias negativas
chegam a 50 mm. No inverno, as anomalias são positivas,
podendo chegar a 100 mm, quando há um evento de La
Niña fraca. Na primavera, quando há um El Niño
fraco, as anomalias de precipitação, podem chegar
a níveis negativos de até 100 mm.
Climatologia do Sudeste
Para NIMER, a circulação atmosférica
sobre o Sudeste do Brasil, resulta da influência do
que o autor chama de “correntes perturbadas”.
Atualmente, estudam-se as características do clima
buscando estender a dinâmica da atmosfera que se manifesta
no comportamento médio das variáveis meteorológicas
observadas nas estações climáticas. Uma
das variáveis mais facilmente percebidas pelo meteorologista,
pelo climatólogo e mesmo pelo observador comum é
o vento. De fato, do ponto de vista da dinâmica atmosférica,
esta variável é de suma importância, pois
ela está relacionada à origem dos fenômenos
climáticos observados (ex.: precipitação,
frentes ou estiagem).
Assim, quando Nimer utiliza a expressão “correntes
perturbadas” ele está se referindo à observação
da predominância dos ventos numa dada região,
que resulta em padrões climáticos.
No Sudeste, Nimer observou que “correntes perturbadas
de sul” estão relacionadas com uma queda de temperatura
sobre a região de sua atuação. Este anticiclone
caracteriza uma massa de ar polar, seco e estável (apresentando
forte inversão térmica3). Atualmente sebe-e
que este anticiclone se origina da formação
de um sistema frontal, em latitudes médias e que quanto
maior sua intensidade maior é o contraste térmico
produzido entre esta massa fria e a quente, tropical que predomina
sobre a América do Sul. Este contraste resulta na frontogênese
(formação de frentes frias) e quanto mais intenso
maior a quantidade de chuva que pode ser formada, caso haja
umidade disponível no continente.
Até chegar na região sudeste, em sua trajetória
de SW para NE, este anticiclone absorva calor e umidade. Com
estas características o anticiclone pode chegar ao
sudeste brasileiro, ocasionando fortes quedas de temperatura
na região. No inverno o continente apresenta baixa
umidade e a presença da frente fria associada ao anticiclone
geralmente não causa chuvas na região Sudeste.
Estas ocorrem na primavera e no verão, quando a frente
alimentada pela umidade continental, origina chuvas, apesar
de nestas estações o anticiclone polar estar
enfraquecido. Este enfraquecimento do anticiclone pode resultar
na estacionalidade da frente durante 2 a 7 dias. Portanto,
no Estada de Minas Gerais chove na primavera e verão
devido à atuação das frentes, mas o inverno
é seco. Esta situação é o que
Nimer descreve como atuação das “correntes
perturbadas de sul”.
A região Sudeste é entre meados da primavera
a meados do outono, atingida regularmente por ventos de W
a NW. A origem dessa circulação está
associada às linhas de instabilidade tropicais (IT),
que por sua vez pertence à massa equatorial continental,
que tem seu centro de ação na Amazônia.
São alongadas depressões barométricas
induzidas em pequenas dorsais de altas. É uma região
que o ar convergente atinge de 60 a 90 Km/h. No interior do
Brasil este fenômeno é percebido com regularidade,
sobretudo no verão, quando há uma queda geral
da pressão devido ao forte aquecimento do continente.
Admite-se que sua origem está ligada ao movimento ondulatório
verificado na frente polar (FP) em contato com o ar quente
da zona tropical. A norte da frente polar e a partir desta
ondulação, forma-se uma ou mais IT sobre o continente.
Apesar de algumas vezes a IT permanecer estacionária,
na maioria das ocasiões esta se desloca com grande
mobilidade; pode atingir até 60 Km/h. As IT’s
assumem a direção E ou mais comumente SE, a
medida em que a FP caminha para o Equador. A associação
destes mecanismos atmosféricos é acompanhada
por pesadas nuvens e chuvas tipicamente tropicais. Estas características
observadas por Nimer, foram denominadas por ele de “correntes
perturbadas de oeste”.
Com maior freqüência, estas chuvas são verificadas
no fim da tarde e no início da noite, graças
ao forte aquecimento diurno que intensifica a radiação
telúrica e, por conseguinte as correntes convectivas.
Estas são as chamadas chuvas de verão, que têm
como principal característica a duração
de poucos minutos. Quando de sua ocorrência, temos uma
sucessão de tipos de tempo: pela manhã a cobertura
de nuvens é quase inexistente, porém com o forte
aquecimento diurno surgem com rapidez cúmulos, primeiramente
sobre as serras, e ao passar da tarde ocorrem cúmulo-nimbos
que encobrem o céu e torno de 5/10 e, no início
da noite, esta cobertura já é quase total, sobre
calmaria. Finalmente dá-se a precipitação,
que pode ser intensa ou não. Depois de sua curta duração,
as chuvas cessam inteiramente, e com leve brisa as nuvens
somem, deixando o céu estrelado. Na manhã seguinte,
o forte aquecimento retorna devido ao aquecimento solar.
A circulação de E para W, que freqüentemente
chegam à região Sudeste, não são
suficientemente estudada, para que se tenha uma idéia
exata de sua dinâmica. Sabe-se, no entanto, que é
característica do litoral das regiões tropicais
atingidos por alísios. Porém, há concordância
de que este fenômeno ocorre no seio dos anticiclones
tropicais sob a forma de ondas que têm a direção
W, constituem pseudofrentes, sobre as quais desaparece a inversão
térmica superior, permitindo assim, a mistura do ar
das duas camadas horizontais dos alísios e, conseqüentemente,
chuvas mais ou menos abundantes anunciando sua passagem. Este
comportamento atmosférico foi observado por Nimer e
denominado de “correntes perturbadas de oeste”.
Este fenômeno pode está relacionado com um reforço
do ar polar nos alísios, com anticiclone polar de posição
marinha. A esse respeito foi escrito: “Novas ondas de
leste se formam principalmente nos dias em que a pressão
cai a um mínimo, na zona equatorial, voltando a subir.
Correspondem, portanto, à situação de
chegada de frentes frias ao trópico, em geral quando
houver formação ciclônica (ondulação)
no Rio de Janeiro. Os respectivos movimentos para oeste acompanham
os avanço de SW da frente fria, sem ramo interior,
e não ultrapassam o meridiano de 40º (oeste de
Pernambuco). Movem-se porém para leste, sob ação
de uma frente fria que avança pelo interior até
Mato Grosso e o centro de ação (alta subtropical)
se afasta para o oceano”.
Muita atenção pessoal para este tipo de voo
Abraços a todos
E bons vôos conscientes.
Veja outras informações sobre nuvens na sessão Meteorologia aqui no Guia 4 Ventos
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