XCountry –
Sincronismo ou Morte (digo, Pouso)
Por Júnior
CB
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XCountry – Sincronismo ou Morte (digo, Pouso)
Por Júnior CB
Está aí um tema que há muito me chama
a atenção no vôo livre, principalmente
quando se fala em vôos de distância ou competições.
Faz bastante tempo que avalio relatos de pilotos que pousam
no meio de um dia bom, como que tendo uma limitação
na sua distância máxima de vôo. O interessante
é que, mesmo cometendo o mesmo erro, repetidas e repetidas
e repetidas vezes, o piloto não consegue entender o
motivo do pouso prematuro: Falta de Sincronismo.
No curso avançado que ministro, o CET (Curso de Evolução
Técnica), no tópico sobre Transições,
dedico algumas horas para o assunto Timing, onde tento passar
aos pilotos o máximo possível de dicas para
que estes consigam desenvolver os seus vôos com o máximo
possível de sincronismo com a condição
do dia.
Desenvolver a habilidade de voar em sincronismo com a condição
não é uma tarefa tão difícil assim.
É verdade que demanda um bom tempo para aprender, e
que o caminho passa pela aquisição de algum
conhecimento técnico sobre micrometeorologia/aerologia
e avança pelas capacidades de observação
e registro do piloto.
Bom, a primeira coisa a ser feita é desenvolver o hábito
de avaliar as primeiras formações de nuvens
do dia no céu. É preciso avaliar bem e ter uma
boa noção quanto à intensidade, volume
e altura das nuvens que compoem estas formações
iniciais e registrar o desenvolvimento das mesmas no decorrer
do final da manhã, até próximo às
11h.
Por intensidade, entenda a quantidade de nuvens no céu
e o perfil de cobertura que estas estão formando. Vale
lembrar que para vôos de XC de parapente, asa e planadores
a intensidade ideal de nuvens e consequente perfil de cobertura
variam um pouco (Quanto mais eficiente o equipamento, menor
deve ser o perfil de cobertura). Então, para o parapente,
um bom perfil de cobertura deve ser de algo entre 5/8 e 6/8.
Por volume, entenda a aparência da nuvem em seu momento
de maior desenvolvimento. É preciso avaliar bem para
identificar o volume padrão e descartar os extremos
maiores ou menores. Já a altura das primeiras formações
serve para se ter uma noção inicial do teto
do dia e para a previsão de aumento durante o dia,
que varia em função da umidade, do gradiente
térmico e da variação de aquecimento
em superfície de cada dia.
Bom, avaliado o início do dia, o piloto deve observar
se as formações estão evoluindo de forma
linear ou aleatória. A evolução linear
consiste de um avanço das formações em
uma direção definida, com uma tolerância
de variação de até 45o. A evolução
aleatória consiste de um padrão de formações
no qual fica difícil se identificar alguma direção
específica na evolução da cobertura.
As nuvens se formam em vários lugares ao mesmo tempo
em posições bem diferentes.
Uma vez que o piloto tenha identificado o perfil de desenvolvimento
da condição no dia, este deve ter registrado
de alguma forma a velocidade com que as novas nuvens se formam,
seja numa evolução linear ou aleatória;
o tempo de desenvolvimento de cada nuvem, de seu início
visível até seu colapso declarado e o intervalo
entre as novas formações.
No início o piloto talvez tanha uma tendência,
até normal, de tentar registrar tuuudo isto no relógio,
com uma precisão matemática. Gostaria de salientar
que isto não é necessário. O importante
é ter em mente um padrão de tempo que consiste
nas seguintes classificações: rápido,
médio e demorado. Acredite, será o bastante
e funcionará tanto para avaliações feitas
em solo quanto em vôo.
Esta primeira etapa de avaliação da evolução
da condição já é de suma importância
para que o piloto tente decolar no melhor momento do dia,
tendo em vista um vôo longo e também um vôo
com uma continuidade bem consistente. Não se esqueça
que o dia tem um perfil de aquecimento que gera uma curva
de instabilidade e que o momento de pico de força de
aquecimento do sol não é o mesmo momento de
pico de aquecimento da superfície, como podemos observar
na figura 1.
A próxima etapa, esta sim, é a decisiva para
que o piloto consiga voar em sincronismo com a condição
o máximo possível. Nesta próxima etapa,
que já ocorre em vôo, o piloto deve exercitar
a sua capacidade de observação, sua sensibilidade
e, principalmente, a capacidade de registrar o que ocorre,
para poder efetuar comparações e determinar
mudanças.
Durante um dia térmico, apesar da tendência inicial
de instabilidade e final de estabilidade, temos momentos cíclicos
durante os quais se apura intensidade, duração
e intervalos entre formações com alguma variedade,
como podemos observar na figura 2.
O que deve ser notado a cada momento do vôo é
o perfil de evolução dos ciclos dentro da janela
produtiva do dia. Se os ciclos estão rápidos
e curtos, o piloto deve ter uma postura, se os ciclos estão
lentos e longos, outra postura é necessária.
Só que para consolidar as informações
de maneira correta, o piloto também deve ter uma boa
noção dos intervalos entre os ciclos. Assim,
o piloto conseguirá montar em sua mente um gráfico
similar ao da figura 2 e adequar a sua velocidade de evolução
à velocidade permitida pela condição.
Ao iniciar estas avaliações, talvez o piloto
pense que é muita coisa para se fazer, como um dia
um piloto de asa me perguntou, durante uma aula do CET, se
os bons pilotos voavam com todas estas informações
na cabeça o tempo inteiro, fazendo avaliações,
medindo as coisas e etc. Respondi a ele que sim e que não.
Afinal, com o passar do tempo, estas avaliações
e medições são feitas de forma muito
natural sem precisar ficar lembrando técnicas e formas.
Justamente como passar uma marcha no carro. Ninguém
avalia a ação de pisar na embreagem, simplesmente
faz o processo sincronizadamente e pronto. Sacou?
Comece a praticar esta técnica de sincronismo e tenho
a certeza de que você verá o seu vôo se
alongar mais e mais a cada nova experiência. Boa sorte
e muitos km!!!
CB – Belo Horizonte/MG
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