XC – Cadê a próxima térmica? (Parte 2 de 2)

 


Por Júnior CB

XC – Cadê a próxima térmica? (Parte 2 de 2)
Por Júnior CB

Verão passou e a temporada 2006 em GV não foi das melhores. Mas, e a sensação de não saber para onde ir após a 1a base. Continua a mesma?
No 1o artigo, falando sobre nuvens, tentei dar algumas dicas para se avaliar melhor a navegação meteorológica com base no que o céu nos diz sobre a atividade térmica. Neste artigo, vamos navegar pelas linhas técnicas de leitura de relevo.

Lendo o Relevo

Quando fazemos leitura de solo, precisamos saber que estamos buscando voar sobre o máximo possível de potenciais fontes produtoras de correntes ascendentes, as maravilhosas e tão desejadas térmicas.
Como sabemos que para termos térmicas precisamos, basicamente, de ar aquecido em movimento ascendente, vamos à origem de tudo.
Para termos ar aquecido precisamos, primeiramente, de coletores de calor, áreas em solo com características favoráveis a receber, reter e refletir calor e, complementarmente, precisamos que estas áreas também tenham características favoráveis para reter ar.
Primeiramente, dê preferência a áreas que tenham maior facilidade de aquecimento superficial e retenção de calor, tendo o cuidado de observar que, nem sempre, o que aquece mais rápido ou é mais maciço é melhor. Na verdade, se a superfície for muito maciça o aquecimento será rápido, mas somente superficial e sem capacidade de retenção do calor. Desta forma, este solo passará por mudanças de temperaturas muito rápidas oscilando de quente para frio a qualquer sombreamento.
O ideal são superfícies que se aqueçam com relativa facilidade, que também mantenham o calor retido por algum tempo e consigam refletir este calor para o ar próximo, desta forma cumprindo uma das partes do processo de formação das convecções.
Muita atenção com o tamanho das áreas avaliadas, pois áreas muito pequenas não conseguem acumular calor e ar suficientes para processos convectivos consideráveis para nosso vôo. Áreas muito grandes, por sua vez, perdem a definição de formato e se tornam difíceis de mapear com exatidão. Imagine, então, áreas com tamanhos de 0,5 a 1,5 campo de futebol como áreas ideais.
Bom, observe que o tempo todo estamos, na verdade, buscando espécies de ninhos nos quais o ar possa ser retido e chocado mas, assim como num ninho de verdade, se não houverem ovos, não importa o quanto o ninho seja bom. Não nascerá nada. Então, verifique também se a área desejada tem capacidade de reter o ar para que este seja aquecido e se cumpra a parte final do processo de formação das convecções.
Vale lembrar que uma convecção não é, ainda, uma térmica útil. Uma convecção é apenas o ar aquecido em forma de uma parcela isolada termicamente do ar á sua volta. Para se transformar em uma térmica útil, precisamos que esta parcela de ar se descole do chão e suba.
É aqui que começamos a avaliar os famosos gatilhos. Mecanismos estáticos ou dinâmicos, inertes ou animados que podem provocar a perturbação necessária para que a bolsa de ar quente se desprenda do solo abrindo o canal mágico para as nuvens.
Um gatilho pode ser uma árvore solitária no meio do coletor, uma corrida de um bezerro desgarrado, um trator cortando o pasto, uma rajada de vento, o parapente de um outro piloto... qualquer coisa que perturbe a bolsa de ar quente.
Existem gatilhos que são ativos, provocam isoladamente a perturbação da bolsa, como um bezerro, um parapente ou um trator e gatilhos que são passivos, dependem de outra variável para provocarem a parturbação, como uma árvole, um poste, um morrote ou um casebre. Estes gatilhos passivos, normalmente, funcionam em conjunto com o vento. Uma razão simples para se entender a causa da maior quantidade de térmicas em dias de vento forte. Só que, infelizmente, como as térmicas se desprendem com maior facilidade, acabam se desprendendo com pouca energia e gerando muitas térmicas falhadas e/ou fracas. Nestes casos, você deve dar preferência a coletores que não contem com gatilhos passivos em excesso e que tenham maior capacidade de reter ar.
Em algumas situações, mesmo sem um gatilho, a bolsa de ar se desprende do solo por causa de seu tamanho e/ou energia acumulada.
Outro fator muito importante a se observar é que, em casos de terrenos com inclinações, as bolsas de ar quente tendem sempre a subir o relevo. Se em sentido a favor do vento, voando com vento de cauda, o terreno for um declive, as bolsas tenderão a se desprender no início deste. Se for um aclive, estas tenderão a se desprender no final deste, o que, inevitavelmente, provoca uma zona negativa entre o início do declive e final do aclive.
Vale lembrar também que as bolsas de ar quente se deslocam por terrenos regulares, normalmente seguindo o vento ou subindo o relevo, até encontrarem irregularidades, naturais ou não, que funcionem como alavancas. Assim sendo, fique também atento a cercas, fileiras de árvores, erosões, rios e outros obstáculos a favor do vento que possam interromper o deslocamento da bolsa em solo provocando seu desprendimento.
Mais um ponto importante é que as térmicas normalmente se desprendem nas extremidades em vinco ou em pequenas elevações no relevo posicionados a favor do vento. Isto pode auxiliar o piloto para que calcule a melhor posição de entrada no fluxo ascendente quando passando pelo coletor.
Resumindo, navegar observando o solo não é tão complicado quanto pode parecer. O que acontece é que existem alguns pequenos detalhes que fazem muita diferença entre acertar uma fonte promissora e pousar numa bela clareira inativa.
O exercício de voar tecnicamente deve ser feito aos poucos e com muita atenção. Busque voar sempre observando o céu e o relevo, estar sempre ciente da direção do vento na camada em que se está voando e no solo, observar as áreas com incidência de sol e as sombreadas e registrar a intensidade das térmicas a cada altura e momento do dia. No início, o que vale são as experimentações e as lições tiradas de cada situação.
Bons e longos vôos a todos.

>volta

 

 


topo