| Decolando...
XC
– O Que os Instrumentos nos Contam Sobre o Vôo
Por Júnior
CB
|
 |
Como combinado, vamos começar a descobrir o novo mundo
que habita dentro de nossos bons e velhos eletrônicos,
vário e GPS.
O Variômetro
Em essência, um variômetro é um equipamento
destinado a registrar as variações de pressão
provocadas pelos movimentos de ascendência e descendência
do piloto durante um vôo. Ele percebe os deslocamentos
verticais do piloto e vai sinalizando a intensidade destes
movimentos.
Na verdade, os vários básicos de hoje, como
muitos sabem, vão muito além deste simples registro
e sinalização da intensidade dos movimentos
verticais. Os vários básicos atuais registram,
adicionalmente, temperatura, altitudes com referências
variadas e possuem também relógio e cronômetro.
Alguns modelos básicos mais modernos, como os da Aircotec,
também registram o gradiente térmico e o diferencial
de temperatura entre a térmica atual e a anterior.
Bom, sabendo o que um vário faz, qual seria sua real
utilidade então? Apenas apontar se você está
subindo ou descendo?
O primeiro valor a ser agregado ao uso do vário é
estar sempre atento à intensidade das térmicas
e também das descendentes por faixa de altitude e de
horário do dia. Isto mesmo. Este é o início
da construção da janela operacional: Mapeamento
das faixas de altitude mais produtivas para se subir.
O piloto deve ter, além do seu vário, um pouco
de conhecimento básico de física elementar.
Principalmente se lembrar de uma coisa chamada inércia.
Assim que uma térmica tem motivação para
subir, ela deve vencer plenamente sua fase inercial para atingir
sua velocidade máxima. Da mesma forma, assim que a
térmica perde sua motivação para subir,
a altitude do famoso ponto de orvalho, a térmica ainda
continua a subir também devido à fase inercial
do fim do movimento ascendente.
O piloto deve ter claramente em sua mente que existe uma faixa
de vôo na qual as térmicas possuem uma intensidade
de ascendência maior, que é justamente entre
estas duas fases inerciais. Em alguns casos, isto se modifica
devido a características particulares de algumas bases
de nuvens. Maaaassss, não se esqueça que a variação
de intensidade nos momentos de maturação de
cada ciclo, podem alterar a sua percepção de
intensidade por faixa de altitude. Então, o que estiver
fora do previsto, significa momento final de ciclos.
Alguns pilotos me perguntam sobre como identificar estas fases
dos ciclos. Não tem segredo. A complicação
inicial é a disciplina de observar, registrar, avaliar
e tomar decisão com base no que é previsto versus
o que é o real.
Vale sinalizar aqui que o piloto deve deixar o seu vário
configurado, quanto à sensibilidade, de uma forma adequada
para o seu estilo e técnica de pilotagem.
Não estou dizendo que seja uma tarefa fácil,
mas um dia também foi difícil aprender a ler
e a escrever. O piloto precisa, sim, começar a se viciar
por observar e registrar esta informação. Tornar
isto um hábito. Em pouco tempo fica mecânico.
Outro valor a se agregar ao uso do vário, é
registrar as variações de temperatura. Enquanto
no chão, o piloto deve observar a temperatura na altitude
da rampa. Após decolar, como o registro da temperatura
não é tão instantâneo, o piloto
deve sim observar as temperaturas indicadas por algumas faixas
de altitude identificadas como baixa, média e alta.
Com a identificação da variação
entre a temperatura mínima e a máxima, relacionada
com suas respectivas altitudes de medição, o
piloto já pode ter uma noção do gradiente
térmico do dia. Se você usa um vário básico
da Aircotec, não precisa fazer esta conta. Se não,
quanto maior a variação entre a temperatura
mínima e máxima numa menor faixa de altitude,
melhor o gradiente térmico e certamente melhor o perfil
do dia térmico.
Mais um valor a se agregar ao uso do vário é
a observação dos fatores acima citados durante
a faixa de horário do dia. Afinal, com a evolução
do dia, algumas situações são previsíveis:
Quanto mais próximo de meio dia, maior a intensidade
das térmicas; Quanto mais próximo de meio dia,
menor o intervalo entre os ciclos térmicos; Quanto
mais tarde durante o dia, mais alto se torna o teto (base
das nuvens) do dia; etc.
Assim sendo, o piloto deve avaliar as medições
iniciais do dia térmico durante a evolução
da faixa de horário do dia. De acordo com a faixa de
horário, se os indicadores que deviam estar em alta
se encontram em baixa, você pode estar sendo avisado
por seu vário que você está num final
de ciclo. Lembre-se sempre disto e tome atitudes corretivas.
Um hábito que também tenho e que é bastante
interessante, pensando na variável tempo do vôo,
é a de sempre que bato numa térmica na qual
preciso enroscar para subir, eu olho para o vário e
vejo minha altitude e o horário em que estou entrando
na termal para medir o tempo que posso perder brigando para
conseguir subir e optar por continuar melhorando a performance
ou então desistir daquela termal e partir para outra.
Mais uma informação que deveria ser consolidada
durante o vôo é a média das térmicas
durante o dia. O previsível é que a média
aumente entre 11h e 15h e o piloto deve considerar reduções
nas médias neste intervalo de tempo como final de ciclo.
Uma dica importante quanto às médias é
o fato de o piloto, quando em transições em
com boa altitude, evitar parar em térmicas abaixo da
média e não desperdiçar aquelas consideravelmente
acima da média.
Muita gente realmente pergunta como é que dá
pra voar e pensar em tudo isto. Não se preocupe, pratique.
Com o tempo, tudo isto fica automático. O que eu não
acho correto é o cara passar a vida jogando na loteria
e esperando se agraciado vez ou outra.
Então, lembre-se: seu vário, na verdade, é
um tracer das características verticais da condição
durante o dia todo de vôo.
O GPS
Em essência, um GPS é um sistema de navegação
global via satélite destinado a registrar sempre a
posição atual de seu usuário em relação
ao globo terrestre.
Os GPS´s atuais trabalham com uma boa precisão
e, além dos mapas de alto nível de detalhamento,
oferecem muitas informações adicionais que realmente
são muito interessantes no apoio à navegação
em vôos XC.
Bom, sabendo o que um GPS faz, qual seria sua real utilidade
então? Apenas apontar direções por onde
seguir?
Além do tradicional uso como bússola de luxo,
os GPS´s de hoje podem servir para muito mais do que
simplesmente indicar o caminho. Vou abordar aqui apenas informações
que são pertinentes à avaliação
da condição de vôo.
A versão 76SMap, da Garmim, é um dos modelos
mais tradicionais do mercado e com, talvez, a melhor relação
custo x benefício para se usar com um vário
básico. Este modelo oferece alguns campos de dados
básicos e que são realmente bastante interessantes:
velocidade sobre o solo, velocidade real (VMG), planeio em
relação ao ar, planeio em relação
ao solo e planeio em relação a um ponto.
Como o indicador da velocidade sobre o solo é uma variável
absoluta e que deve ser constantemente monitorada durante
as transições, é importante que o piloto
observe as variações deste indicador por faixas
de altitude para compreender melhor em quais faixas ele pode
transitar em maior velocidade para, complementarmente à
orientação do vento, explorar isto e se posicionar
melhor em relação à sua rota.
O piloto deve saber que podem ocorrer alterações
de intensidade e direção do vento por faixas
de altitude e estas alterações serão
refletidas diretamente na velocidade final do parapente nas
transições. Com o conhecimento desta situação,
o piloto pode tomar atitudes que melhorem seu rendimento no
momento com vistas ao rendimento final do vôo.
O indicador de velocidade real, ou VMG (velocity made good
– que eu prefiro traduzir como velocidade produtiva)
é um indicador que muitos pilotos sequer conhecem e
que desde o início do curso avançado eu venho
disseminando a sua importância. Ele diz respeito a sua
velocidade de aproximação de um objetivo.
Qual a diferença, então, entre velocidade e
velocidade VMG? A velocidade compara o seu deslocamento em
relação ao solo e só. Já a VMG
compara o seu deslocamento sobre o solo em relação
à aproximação de um determinado ponto.
Para se ter uma idéia, você pode estar voando
a 50km/h e ter uma VMG de apenas 10km/h. Como??? Simples,
basta você não estar voando totalmente alinhado
com o seu ponto referencial. Quanto mais alinhado com o ponto,
mais iguais se tornam os valores obtidos para as variáveis
velocidade e VMG.
Um exemplo prático, que tem seu risco maior tanto maior
a distância para o ponto referencial, é o de
o piloto voar as transições se alinhando sempre
com a maior velocidade possível. Sem se preocupar com
a VMG. Neste caso, é possível que um piloto
voe a 60km/h com VMG de 55km/h e outro voe a 57km/h com VMG
de 56km/h. Quem vai chegar mais rápido ao ponto? Simples,
não?
Já o planeio, que é uma equação
feita entre sua velocidade e sua taxa de afundamento (planeio
em relação ao ar = velocidade relativa / afundamento;
planeio em relação ao solo = velocidade absolunta
(chão) / afundamento; planeio em relação
a um ponto = VMG / afundamento), é um indicador que
não pode, em hipótese alguma cegar o piloto.
Muitas vezes o piloto voa preocupado apenas com este fator,
como se ele congregasse toda a magia da eficiência nas
transições. Não é bem assim. O
conceito de S2F (Speed to Fly) vem justamente para complementar
a bagagem de atitudes possíveis para se produzir maior
eficiência durantes o vôo como um todo.
O que é voar no melhor planeio, antes de tudo? O melhor
planeio é uma relação através
da qual o piloto consegue atingir o máximo de distância
para cada metro de altitude consumido durante um planeio.
Só que um vôo, principalmente de XC, não
é feito apenas de planeio. Ele é feito de planeio,
busca por térmicas e ascendência em térmicas.
Então, numa avaliação simplista, apenas
voar no melhor planeio não quer dizer nada. O que potencializa
um vôo XC são dois fatores bem objetivos: 1º
– se manter voando; 2º - cobrir cada metro de distância
horizontal (afastando-se da decolagem) e vertical (subindo
em térmicas) no menor tempo possível.
O S2F tenta indicar ao piloto, levando em consideração
a variáveis meteo vento e intensidade das correntes
ascendentes, qual a melhor velocidade relativa (aerodinâmica
– em relação ao ar) a se manter durante
cada momento. É ai que muita gente começa a
tropeçar com o S2F. Ou desacreditando ou não
conseguindo aplicar.
O S2F deve ser entendido como uma indicação
de postura e não como uma ordem exata do que se fazer.
Os conceitos básicos (não vou me estender aqui
– o curso avançado XCb existe para isto) do S2F
são os seguintes:
Em situação de ascendência, voe mais lento.
Disto, muita gente já sabe;
Em situação de descendência, voe mais
rápido. Isto também muita gente já sabe;
Em situação de vento de cauda, voe mais lento.
Alguns já sabem disto;
Em situação de vento contra, voe mais rápido.
Também já conhecido de alguns.
A complicação vem na hora de se decidir sobre
o quanto mais rápido ou mais lento. A relação
é: Quanto mais forte ascendência, mais lento.
Quanto mais forte a descendente, mais rápido. Quanto
mais forte o vendo a favor, mais lento. Quanto mais forte
o vento contra, mais rápido. Lembrem-se que estou falando
de velocidade relativa e não de velocidade em relação
ao solo. Por isto gosto de voar usando a windprobe. O vário
conectado a uma windprobe, lhe mostra esta informação
o tempo todo.
Bom, parece fácil, mas o parágrafo acima é
maravilhoso quando se pensa apenas na atual perna da transição.
E, relembrando, um XC é feito por outras coisas além
do planeio.
É ai que entra o famoso anel McCready. O que é
isto? Bom, é um anel no qual você configura a
intensidade prevista para a média das próximas
térmicas e, com base nele, ajusta o gráfico
de planeio do parapente para fazer correções
no resultado das equações do S2F.
Observem que estou avaliando com o McCready a intensidade
das PRÓXIMAS térmicas e não de ascendentes
ou descendentes durante uma transição.
Em resumo, o que o McCready faz é o seguinte: Quanto
maior a intensidade da média das próximas térmicas
esperadas (não esquecer que com o passar do dia esta
previsão tem que ir sendo atualizada) mais rápido
o piloto pode voar durante suas transições e,
quanto menor, mais lento. Este mais rápido ou mais
lento, na verdade, deve ser aplicado sobre o mais rápido
ou mais lento do S2F padrão.
Caramba... é eu sei. Também me cansa ficar
escrevendo tudo isto. Acho que por isto a idéia do
livro seja complicada para um DDAH como eu. Mas, com muita
prática, com muita disciplina e com um estudo mais
detalhado dos conceitos que permeiam este nosso esporte, a
coisa começa a ficar mais simples.
Como eu já citei em outras ocasiões anteriores,
um piloto de asa que fez o curso XCb em Brasília, me
perguntou se os “fodões” voavam mesmo com
tudo isto na cabeça. Eu respondi que sim e que não.
Que sim, pelo fato de eles dominarem a técnica mesmo
e que não, pelo fato de ser uma coisa já mecânica.
Bom, este piloto, logo após o curso, foi o piloto revelação
de Brasília voando com uma asa antiga, ainda com kingpost,
no meio de um monte de macaco velho de Brasília com
asas “carecas”.
Ele comentava comigo durante a semana: “Júnior,
é muito fácil. Como é que pode. Eu tirei
pra “tal lugar” e o cara mandou reto. Eu sabia
que ele ia pousar. Não deu outra. Ele pregou e eu fui
embora”.
Bom, o curso XCb está ai. Pode ser montado em qualquer
região do país e tem estes e vários outros
tópicos bem interessantes sobre a essência técnica
do vôo de distância, o XC.
Espero que este texto ajude, não a matar todas as
dúvidas, mas a despertar toda a curiosidade em cada
um de vocês em busca de mais e mais possibilidades.
Grande abraço e bons vôos a todos,
MAIS ARTIGOS DE JCB
>por
onde começar?
>Seu
programa de milhagem
>O
importante é saber seguir em frente
>Fator
regularidade
>Ellus
também voa
>Cade
a próxima térmica?
>Cade
a próxima térmica? (parte 2)
>Nivel
de risco...avalie você
>A
vez dos eletrônicos (variômetros e GPS)
>Campeonatos...
como começar?
>XCountry
ou campeonato?
>Vou
por aí....
>Sincronismo
ou morte
CB – Belo Horizonte/MG
SOL Paragliders
Sky Driver
AirCotec
topo |