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XC – O Fator Regularidade
Por Júnior
CB
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XC – O Fator Regularidade
Por Júnior CB
Quem aí amarga a terrível experiência
de fazer um vôo incrível num dia e ficar o resto
do mês, do semestre, do ano ou da vida sem fazer outro
grande vôo? Relaxe, isto acontece com a grande maioria
dos pilotos de lazer ou de fim de semana e até mesmo
com alguns pilotos mais dedicados.
Isto mesmo. Um dia a condição está perfeita,
o vôo bem previsível e você acerta a mão
em tudo. Até nos momentos em que você erra, a
condição está lá para dar aquela
ajudinha milagrosa. O problema é que este fenômeno
cósmico parece nunca mais querer se repetir. E aí?
Não, SEUS POBREMAS NÃO SE ACABARAM. Mas podemos
tentar minimizá-los. Vamos lá!
A primeira coisa que um piloto determinado a buscar a regularidade
no vôo de distância (XC) deve fazer é estabelecer
metas progressivas de distância para seus vôos.
O mínimo que um piloto deve almejar, para ser considerado
XC, são 50km (para os já experimentados) e 30km
(para os iniciantes).
O piloto de XC, como já escrito diversas vezes nesta
coluna, deve ter disciplina e ela começa pelo respeito
ao horário de se chegar à rampa. Piloto de XC
quer sempre voar o máximo de horas possíveis
do dia, inclusive experimentando horários cada vez
mais adiantados no seu site para ampliar esta faixa de horário.
O Piloto deve sempre verificar, antes de sair de casa, bateria
do rádio, pilhas do GPS e Vário e ter na mochila
vestuário adequado para uma boa variedade de perfis
meteorológicos. Se no seu site puderem ocorrer dias
de vento mais intenso, o piloto também deve levar o
lastro cheio de água para a rampa. Afinal, melhor ter
e não precisar usar do que precisar usar e não
ter.
Só para lembrar, um piloto que realmente deseja evoluir
no XC deve ter seu carro e seu resgate exclusivos. Muitas
vezes a falta do carro, que está buscando os amigos
no meio do caminho, deixa o piloto sem o devido apoio em alguns
momentos importantes.
O piloto deve chegar cedo à rampa, montar o seu equipamento
e acompanhar a evolução da condição
para identificar o horário ideal para a decolagem.
Esta identificação, apesar de alguns pensarem
se tratar de adivinhação ou parasensibilidade,
é resultado de observação e análise.
Observar a intensidade do vento e suas oscilações,
afinal o vento começa a sofrer bloqueios das colunas
de ar ascendente e isto é facilmente percebido na rampa
e a cobertura de nuvens, quando não for um dia azul.
A cobertura de nuvens deve ser avaliada pela sua intensidade,
velocidade de desenvolvimento e direção de evolução.
Antes de decolar, o piloto deve ter em mente um padrão
para o dia, dentro de suas habilidades de leitura da condição,
e fazer um briefing com seu resgate. O piloto deve, obviamente,
optar por rotas que ofereçam maior simplicidade de
evolução, com boas formações,
vento plenamente a favor e boas opções de acesso
para o resgate.
Decidida a rota, o piloto deve configurar a mesma no GPS,
se vestir e aguardar a melhor janela para saída, que
é resultado da avaliação dos ciclos para
que o piloto possa decolar no início de um e não
no fim. Quando o piloto decola no fim de um ciclo, o vôo
já se inicia com um alto desgaste físico e mental
provocado pela dificuldade de ganho para posicionamento e
início da 1a transição, para se conectar
na condição e iniciar o XC propriamente dito.
Como estamos falando de regularidade, acho que vale a pena
reler o início do texto antes de prosseguir. Eu divido
um vôo em 3 fases e a 1a, citada acima e que compreende
todos os eventos desde o momento da ida para a rampa até
a decolagem, é uma das mais importantes por ser a fase
que amplia ou reduz as possibilidades iniciais de um vôo.
Para consolidar o aprendizado desta 1a fase, eu recomendo
que o piloto passe a tomar suas decisões e tenha atitudes
plenamente conscientes. Muita gente realiza esta 1a fase de
maneira completamente displicente. Não tem como produzir
conhecimento sem reflexão e reflexão só
é possível pela observação consciente
dos fatores conhecidos.
Bom, já em vôo o piloto está na 2a fase
e deve adotar uma postura mais prática, simples e objetiva.
Na 1a térmica, o piloto deve subir rápido e
estar atento à deriva para se certificar do correto
posicionamento para a continuidade do vôo. Em muitas
rampas o início do XC não tem grandes dificuldades,
mas mesmo assim o piloto deve avaliar, se não para
evitar dificuldades, para aproveitar oportunidades.
É muito comum o piloto iniciante, ou mesmo já
experimentado, mas sem muita prática no ofício,
estabelecer a meta de voar alto o tempo todo. O piloto que
voa com isto na cabeça, não consegue observar
corretamente a condição e as opções
à sua frente. Eu costumo dizer que a condição
convida o piloto para a tirada. É um convite sutil,
mas claro, nítido. Só que, para ouvir ou ver
este chamado, é necessário estar atento aos
momentos de vôo e isto não é fácil
para quem decola com uma régua na cabeça.
Para que o piloto voe entendendo o que se passa, ele precisa
estar lendo a condição o tempo todo. Ta subindo
na térmica? Olhe à frente. Mapeie o céu
e monitore as alterações da cobertura no caminho
adiante e procure por alterações e novas formações
próximo a sua posição. Avalie a sua altura,
verifique se é possível tirar para lá
e aproveitar um ciclo novo e, se a resposta for positiva,
mande bala sem qualquer hesitação.
No início do XC, da 1a à 3a transição,
normalmente, o piloto não deve ter muita pressa e deve
pilotar com sensibilidade para ir sentindo a solidez da condição
através da confirmação das análises
prévias feitas pelo piloto.
Neste início também o piloto deve ir sempre
se posicionando de maneira positiva para eventuais contornos
de roubadas e também para melhor aderência à
condição favorável do dia em relação
à evolução e inclinação
do vento.
Com a entrada do dia na fase mais madura, entre 13h e 16h
na maioria dos sites do Brasil, o piloto obviamente deve começar
a operar um pouco mais alto, fixar um limite mais baixo para
a final das transições e também mais
baixo para a zona de alerta para que o vôo não
acabe precocemente. É nesta fase do dia que o piloto
consegue imprimir uma média mais consistente de distância
por hora voada e também é a hora de, em se voando
em grupo, tirar a diferença da turma da frente com
um uso um pouco mais agressivo do speed system.
Para falar um pouco de busca de térmicas, qualquer
piloto deve ter em mente que esta é resultado de calor.
Então, é importante que o piloto, complementarmente
à leitura das nuvens, quando estas existirem, faça
a leitura do solo em busca das áreas aquecidas com
perfil mais favorável à retenção
de calor e formação de convecções
e também identifique as áreas negativas. Juntamente
com esta análise, o piloto deve sobrepor a variável
vento para traçar uma rota adequada para seus planeios.
Pastos com chão visível, terrenos em aclive,
pastos amplos com pequenas matas no meio, grandes áreas
aradas, cordilheiras, picos em meio a grandes áreas
planas... existe uma grande gama de relevos favoráveis.
De qualquer forma, dois tipos de relevo ainda matam o vôo
de muitos pilotos: os microvales e os declives.
Os microvales são regiões de afunilamento do
terreno com formação de cordilheiras, ou seqüências
de morros nas extremidades. O contorno deste tipo de relevo
exige muita atenção à condição
e principalmente a inclinação e intensidade
do vento.
Os declives, áreas onde o vento desce o relevo, também
são regiões interessantes. Não é
muito fácil identificar relevos com pequeno grau de
inclinação, mas é possível perceber
as depressões e casar a inclinação com
a direção do vento. O normal é se encontrar
áreas negativas entre o início e o fim do declive.
Já no aclive, a subida que pode haver após o
declive, ainda que o piloto ache uma bolsa no início,
ele deve ir trabalhando a térmica e seguir a deriva,
pois normalmente a termal irá se desprender no final
do aclive.
Esta 2a fase é o momento em que muitos pilotos vêem
seus objetivos cair, literalmente, por terra.
É nesta fase que o piloto precisa de mais treino para
suas habilidades. Ter consciência de suas decisões,
agir com objetividade e deixar a condição lhe
ensinar o que é necessário para ir mais longe.
Este “deixar a condição lhe ensinar”
significa sentir o que se passa, avaliar as nuances da condição,
observar visualmente o cenário e traduzir o que se
vê em base para o que fazer com determinação
e confiança.
Se o piloto soma algumas características da condição
num dado momento e entende que deve tirar para uma próxima
área e ele escolhe esta área com base em algumas
análises do relevo à frente ele deve seguir
este seu procedimento com determinação. Muitas
vezes o piloto, temendo ter tomado uma decisão errada,
muda de postura e direção várias vezes
durante a tirada, o que lhe consome altura e provoca desgaste
mental. Isto tira qualquer possibilidade de se aprender com
a aplicação do próprio conhecimento e
comparação com os resultados práticos.
O piloto só terá capacidade de produzir conhecimento
quanto a esta fase do vôo se ele realmente fizer suas
análises, aplicar suas decisões e ações
e fizer uma crítica racional tanto das situações
de sucesso quanto das de fracasso.
Como estamos falando de regularidade, gostaria de lembrar
a todos que não é possível ser uma pessoal
regularmente sortuda. É, sim, possível produzir
um perfil de conhecimento próprio e técnico,
quanto ao vôo, que permita ao piloto tomar cada vez
mais decisões acertadas e minimizar as margens de erro
de suas ações.
Eu, muitas vezes, tento resumir em algumas poucas características
o que me faz um piloto com tamanha regularidade, com tão
baixa margem de erro nas tomadas de decisões e com
capacidade de recuperar mesmo algumas decisões precipitadas.
Não vejo nestas tentativas, características
maiores do que a obstinação pela superação,
perfeccionismo e a busca incansável pelo aprendizado.
Eu me programo de maneira muito flexível para cada
vôo e vou deixando a condição moldar a
minha estratégia. No vôo de Jaraguá-GO
para Goiânia-GO (100km), no encontro deste meio de ano,
por exemplo, o dia estava muito difícil. Céu
azul, inversão muito baixa, zero de deriva e total
indefinição de um padrão para o dia.
Eu repetia comigo mesmo o tempo todo que o nome do jogo era
paciência (o engraçado é que eu ficava
repetindo a frase em inglês – coisas do CB). Cada
vez que eu estava muito baixo e batia numa termal muito fraca
e sentia minha inquietação natural provocar
uma ação precipitada de buscar algo melhor,
eu voltava a falar a frase chave do dia, esquecia a meta maior
e deixava o vôo rolar. Quando eu ganhava alguma altura,
a agressividade voltava e ai sim eu tentava impor meu plano
para que o vôo rendesse alguma coisa.
Cada piloto deve ter uma forma de se manter consciente do
vôo. Regularidade no vôo é resultado de
regularidade nas análises, nas decisões e na
aplicação de ações práticas
e objetivas.
Para alguns participantes do XCb (curso de XC), principalmente
quando eu identifico uma falha padrão, eu recomendo
ao piloto escrever o lembrete para correção
de postura e/ou atitude num esparadrapo e colar no cockpit
ou no tirante, em lugar de fácil visualização.
Regularidade não é resultado de quantidade de
tentativas e sim da qualidade de cada tentativa que o piloto
faz de atingir e superar seus limites. Tenha plena consciência
do você está buscando a cada momento do vôo,
controle com racionalidade seus impulsos, desenvolva sua habilidade
para avaliar a condição e tenha mais segurança
nas suas decisões. Lembre-se da meta progressiva de
distância e, principalmente, lembre-se de que a busca
pela regularidade é um caminho longo que exige muita
determinação.
Bons e longos vôos a todos.
>volta
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