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XC – Ellus também voa
Por Júnior
CB
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XC – Ellus também voa
Por Júnior CB
Não considero o vôo para Brasília um XC,
afinal os 75km que separam a rampa do Vale do Paranã
do tapete verde da Esplanada dos Ministérios, no coração
de Brasília, estão mais para Race to the Goal.
De qualquer forma, é um vôo com um certo grau
de dificuldade técnica que acaba por testar muito o
piloto durante o percurso.
Era sábado, 15 de Outubro de 2005, e fui para o vale
já um pouco depois do horário por estar levando
um aluno para decolar no fim da tarde. O objetivo era decolar
por volta de umas 14h para estrear o Ellus, que tinha acabado
de chegar para a Escolinha XCb, e sentir as reações
da vela em térmicas, experimentar precisão e
tempo de resposta aos comandos e também a interatividade
com a selete para uma pilotagem mais ativa.
Chegando na estrada de acesso à rampa já via
Boomerang, Omega 6, Eclypse e Synergys voando e subindo bem
na primeira termal. Como não estava no jogo, preparei
a vela com calma, fiz algumas inflagens para ajustar os freios
e sentir o peso dos comandos e então parti para o passeio.
Já na saída tuuuuuuuudo para cima. O dia estava
forte e divertido. O Tião estava enroscando comigo
em seu Eclypse e tomava altas sacolejadas e algumas fechadas.
Eu só de camarote rindo e zoando ele.
Trabalhamos bem esta 1a termal e a turma do 1o pelotão
já ia loooonnnnge. Como eu estava só a passeio,
o programa era fazer uma horinha de local e pousar no pesque
e pague de cima para então mais tarde voltar à
rampa com o aluno.
Sai bem da rampa em direção ao pesque e pague
para ficar sobrevoando o local. No caminho, como não
tinha compromisso, acabei atravessando o GAP pelo ponto mais
negativo, como tantas vezes já havia desenhado no quadro
para os alunos do curso avançado, só que o Tião
veio inocente na cola.
Por já saber o comportamento previsível do local
administrei melhor a velocidade de transição
com o Ellus e o Eclypse chegou bem mais baixo num ponto muito
positivo que há muito eu também já havia
mapeado após a travessia do GAP, próximo ao
asfalto. Resolvi mapear a térmica para o Tião
para que ele voltasse ao jogo e seguisse com a turma do XC.
Eu iria ficar por ali mesmo no pesque e pague.
Nesta de mapear a termal fiquei muito alto e justamente no
início de um ciclo muito positivo, o que tornava praticamente
impossível pousar nos próximos 20min no local
planejado. Meu carro já estava no pesque e pague e
eu cada vez mais estratosferado. Olhava à volta, fazia
uma leitura da condição e não acreditava
que teria que mandar para baixo. Não deu outra. Com
20min de vôo pedi ao meu resgate que voltasse para o
asfalto. Eu iria testar o Ellus num vôo mais sério.
A idéia inicial era ir para Formosa, 40km, por uma
nova rota seguindo o asfalto. Olhando bem a condição
e monitorando a performance do Ellus na navegação,
decidi que iria tentar Brasília com tempo para voltar
os 100km de carro para a rampa a tempo de soltar o aluno.
Nesta tirada inicial para sul o Tião se aventurou um
pouco cedo na travessia do asfalto para a lagoa e acabou perdendo
muito tempo para voltar ao ciclo e ficar alto novamente. Eu
corrigi a rota um pouco antes do trevo para Brasilinha e fui
no andar de cima o tempo todo. Pé no talo e o Ellus
respondendo muito bem.
As asas, que costumeiramente decolam mais tarde do que os
parapentes - eles nunca vão para o XC, só para
Brasília, podem se dar ao luxo de voar só no
horário mais filé da condição
e neste momento estavam tirando da Cachoeira do Itiquira para
o asfalto.
Cheguei muito bem em Brasilinha, 30km, na 1a hora de vôo
e a primeira asa já estava subindo bem sobre a reserva
de águas emendadas, um pouco à esquerda da rota.
Iniciei a travessia da Brasilinha e uma outra asa estava chegando
no meu rastro. No meio de uma transição, eu
de Ellus e o cara numa careca top, passamos por uma termal
fora dos padrões do meu MacCready e continuei enquanto
o cara, inacreditavelmente, parou para enroscar. Em 75km um
erro destes passa em branco para uma asa, mas não para
um parapente.
Como o vento por aqui é tradicionalmente SE, após
passar Brasilinha o 1o estágio do vôo para Brasília
está concluído e o vôo entra num estágio
um pouco mais estratégico para que o tempo seja bem
administrado e a rota seja aproveitada de maneira a facilitar
o 3o e último estágio.
Mesmo voando sem lastro numa vela L, levei o Ellus muito bem
com a condição mais forte até Brasilinha
e o restante do vôo exigiria menos esforço e
mais atenção.
Chegando na lagoa da Embrapa, 1h30 de vôo, fiquei no
limite mínimo de minha janela operacional e percebi
que estava exagerando na confiança com a vela. O cara
da asa passou bem e eu tive que investir um pouco de tempo
localizando uma boa para voltar para o andar de cima. Deu
certo e me policiei para evitar outro mole. Metade do vôo
já estava no GPS.
Na perna para Sobradinho, 54km, acabei tendo que optar em
continuar do lado direito do asfalto, o que costuma inviabilizar
o estágio final pelo posicionamento em relação
ao vento na final. Fiquei baixo num platô à direita
da chegada da cidade e para piorar tive que investir com o
Ellus mais para fora da rota, ou seja, mais para a direita.
O vôo é para SW e eu estava tendo que escorregar
para W com vento SE. Apesar do posicionamento ruim, achei
uma boa termal.
Bom, como altura é uma necessidade e bom posicionamento
é uma importância aproveitei bem a térmica
e comecei a colocar força no vôo novamente. A
condição estava boa, eu estava motivado e levar
o Ellus até a Esplanada virou um desafio.
Eu estava voando com minha CX Pro, que tem uma pequena alteração
na ancoragem da roldana superior do Speed System e aproveitei
para explorar bem as margens de velocidade do Ellus com o
S2F do vário.
De Sobradinho em diante foi só alegria. Consegui atravessar
a cidade e o asfalto para S num ponto meio que limite para
começar o 3o estágio numa boa posição
SW e os ciclos estavam previsíveis e consistentes.
Mandei para a guerra eletrônica dispensando algumas
termais mais fracas pelo caminho e fui confiante para a península
do lago norte para pegar a última na divisa da terra
com o lago.
Só alegria. 65km no GPS em 2h30 e a última térmica
no vário no local planejado. A turma do 1o pelotão
tinha se dispersado caindo pelo caminho. 3 parapas (Boomerang
3, Synergy 2 e Synergy) morreram na beirinha da praia com
o vento contra. Uma asa estava iniciando a aproximação
já sobre a esplanada.
O visual era reconfortante... quase havia me esquecido que
ainda tinha que encarar mais 100km de volante para voltar
à rampa para soltar um aluno. Botei a final com o pé
no talo e com 2h40 de vôo de través com um Ellus
L já estava iniciando aproximação sobre
a Esplanada dos Ministérios no coração
de Brasília.
Quanto ao retorno para a rampa? O aluno achou que eu merecia
um descanso.
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