Eletrônicos – A vez dos integrados

 


Por Júnior CB

Eletrônicos – A vez dos integrados
Por Júnior CB


Depois de muito falarmos de técnicas de vôo para XC, de estratégias e de postura em vôo, é hora de falarmos dos equipamentos eletrônicos que usamos em vôo e que, garantidamente, nos fornecem as mais variadas informações que, com a devida interpretação e bem aproveitadas, possibilitam otimizar em muito a performance em vôo.
Há muito me dedico a aprimorar meus conhecimentos em aerologia, meteorologia, instabilidade atmosférica, aerodinâmica, mecânica de vôo e estratégias para alto rendimento e regularidade em vôos de distância e no decorrer deste caminho evolutivo, sempre me vi suportado pelos eletrônicos (Vário e GPS).
Sempre usei os eletrônicos para avaliar minha performance em vôo, para acompanhar a evolução de alguns indicadores da condição (instabilidade, térmicas e vento por altitude), para suportar a navegação produtiva (meteo e geográfica) e também para registrar minhas atitudes e tomadas de decisões a cada momento para analisá-las após o vôo.
Qualquer piloto que tenha pretensões a voar XC sabe que é imprescindível o uso de um vário e de um GPS. O que a maioria não sabe é o potencial de produção de informações destes dispositivos.
O vário, usado por muitos para ver (ou simplesmente ouvir) a intensidade da térmica atual e o GPS, usado por muitos como uma bússola de luxo ou mero indicador de direções, são dispositivos que podem dizer muito mais do que isto.
O vário, na verdade, funciona como um tracer do perfil vertical da condição. Isto mesmo. Se o piloto estiver atento tanto às ascendentes quanto às descendentes e se lembrar da taxa natural de afundamento de seu equipamento, ele conseguirá ter em mente um desenho 3D do perfil de instabilidade de cada região e momento do vôo.
O GPS, por sua vez, funciona como orientador geral de navegação e também como um tracer do perfil horizontal da condição. Velocidade e direção do vento, derivada das térmicas, eficiência do planeio, velocidade absoluta do equipamento, posicionamento adequado em relação ao vento para melhor aproximação dos objetivos, velocidade média de evolução do vôo, camadas mais produtivas para planeios... putz... um monte de coisa.
Para maximizar a disponibilidade de informações em vôo, há 6 anos comecei a usar o vário conectado ao GPS. Pesquisei fabricantes e modelos dos mais variados pelo mundo e no final acabei optando pelo Flytec 4030Race. Com a conexão entre vário e GPS, comecei a ter acesso a informações de Speed to Fly (S2F) e Final Glide (Planeio Final).
O Final Glide é um recurso mais direcionado para vôos de competição race. É muito bom ter uma 2a opinião quanto à melhor hora para se tirar para o goal. O vário, funcionando juntamente com o GPS, avalia a distância para o goal (considerando a altitude do mesmo) e, com a altitude atual, verifica se o diferencial de altitude e o planeio do equipamento são suficientes para se atingir o goal. O Flytec 4030Race permite ao piloto, inclusive, informar manualmente o vento a ser considerado durante o planeio final para que os cálculos sejam mais precisos.


O Speed to Fly é um recurso bastante útil para todo o vôo, principalmente em vôos XC, uma vez que funciona como um calculador em tempo real da melhor velocidade de planeio para se obter o máximo em performance horizontal em cada transição. Em vôos XC normalmente o piloto busca voar mais alto e executa transições bem maiores que em competições race. Assim, certamente ajuda muito usar afinadamente as técnicas de S2F para otimizar ao máximo cada transição. Em competições race, onde o fator tempo é vital para bons resultados, o S2F é um pouco relegado ao 2o plano e o Planeio Final acaba sendo o grande diferencial.
Pelo visto, o vário conectado ao GPS seria a última fronteira. Mas não foi o que os fabricantes de equipamentos eletrônicos para o vôo livre planejaram para nós pilotos.
Mesmo com o Top Navigator (AirCotec) no mercado há mais de uma década e tendo como garoto propaganda Stephan Stiegler, os equipamentos integrados não conseguiam cair nas graças dos pilotos. Obviamente o fator custo também pesava contra, mas não era só isto. Existiam problemas culturais, existia a insegurança de depender de um único equipamento e também sempre existiu a dúvida quanto à utilidade das informações extras que estes disponibilizavam para os pilotos.
Atualmente os pilotos de vôo livre, além de possuírem equipamentos (Asas e Parapentes) mais precisos e eficientes, também se preocupam muito mais com a otimização de cada etapa do vôo em busca de reduzir segundos nas corridas para os goals e de incrementar km´s na busca por recordes. Estes fatores, aliados à redução de preços e a uma visão um pouco mais prática e desmistificada da utilização de indicadores de performance como o S2F e o Final Glide promoveram a definitiva entrada dos integrados no mercado.
Há 2 anos decidi migrar para os integrados. Acompanhando relatos de uso dos novos equipamentos, lendo manuais técnicos, interagindo com os fabricantes e tentando entender o que o novo traria de novo, acabei aguardando mais 1 ano e somente no final de 2006 realmente comprei meu integrado, um Flytec 5020.
A Flytec produz dois modelos de integrados atualmente: o 5030, topo de linha e o 5020, opção de entrada no mundo dos integrados. A Flytec atualmente compartilha a produção com a Brauniger dos modelos Compeo e Competino, que são respectivamente os mesmos eletrônicos e usam os mesmos softwares que 5030 e 5020 da Flytec.
Separando os dois modelos em nichos específicos, diria que o 5030 é um modelo bem completo que suporta muito bem vôos race e atende na totalidade todas as necessidades de informações para vôos XC. Já o 5020 é um modelo mais compacto em dimensões e funções suportando de maneira mais plena vôos race. Destaque para o 5030, por registrar a intensidade média das térmicas do dia e por trabalhar com uma barra de velocidades com marcação da velocidade ideal de planeio a cada momento do vôo.
O Flytec 5020, modelo que vou detalhar neste artigo, fornece basicamente todas as informações necessárias para avaliação de performance em vôo e também para suporte a decisão em navegação XC ou race. Este modelo trabalha com 3 telas diferentes:


Tela Navegação Objetiva/Vário

Tela Mapa de Navegação

Tela Final Glide


As telas de Navegação e Final Glide possuem 3 paginações diferentes, nas quais se podem configurar 3 campos de usuário com dados de interesse do piloto para cada momento do vôo ou para cada situação específica a analisar para tomada de decisão.
Observando melhor o Flytec 5020, é fácil saber que se trata de um equipamento prático e funcional para uso em competições race. Ele suporta plenamente a configuração de rotas do tipo competição com identificação não só dos waypoints, mas também das dimensões dos cilindros para contorno dos pilões e ainda definição de tipo e horário de abertura do starting gate.




Na 1a etapa do Brasileiro de GV deste ano, pude testar uma rota de competição sendo executada na totalidade. É muito interessante e funcional. Tanto usando starts remotos como starts de raio a partir da decolagem e também em provas com múltiplos starts, o Flytec 5020 faz todo o trabalho de monitorar posição e tempo e avisar ao piloto o momento de validação da abertura da prova.

Assim que as condições necessárias para abertura da prova sejam reconhecidas pelo 5020, piloto dentro do raio válido e horário, o vário, que inclusive faz uma contagem regressiva para o horário da abertura do start, emite um beep específco para que o piloto possa tomar a atitude de abrir sua prova.
Daí para frente o piloto, que vai buscar seguir a rota, marcar os adversários e tentar usar bem cada térmica e cada planeio, passa a ter suporte de navegação para o próximo waypoint e também tem uma seta secundária que aponta para o waypoint seguinte, o que ajuda muito numa avaliação antecipada da condição na próxima perna e também num posicionamento mais adequado para a passagem pelo waypoint ativo.
Por fim, lembrando que estamos falando mais especificamente do uso do 5020 em competições race, o próximo e muito útil recurso deste equipamento é o calculador de planeio final, que pode ser usado tanto para um waypoint quanto para o goal. A sua aplicabilidade mais prática é numa tirada para o goal, onde o piloto precisa de uma referência calculada de altura de chegada ao goal considerando o melhor planeio do equipamento e o vento na perna final (vide tela Final Glide). Este cálculo de planeio final vale para o piloto até mesmo quando ainda falta algum waypoint a ser contornado. O 5020 calcula a rota total restante contra o melhor planeio e o vento em cada perna para apurar se há altura suficiente para que o goal seja alcançado.
Ao final da prova, se o piloto chegar até lá, o vário inclusive dá novamente um beep e uma messagem de rota concluída.

À exceção do recurso de planeio final, todos os demais recursos do 5020 são muito úteis e aplicáveis também no vôo XC. Sendo esta a minha especialidade, estou me sentindo plenamente atendido pelo equipamento. A única coisa que sinto falta, durante planeios mais longos, é do suporte para S2F e do registro de média das térmicas do dia, disponível somente no modelo 5030.
Tanto o 5020 como o 5030 possuem uma boa variedade de campos para seleção:
FL (ft) Nível de vôo, não configurável pelo usuário.
Alt a. Gl Altitude calculada sobre o goal. Calculada para uma rota e inclui a velocidade e direção do vento. *
Alt a. BG Altitude de segurança sobre a rota do melhor planeio.* (Não disponível nos primeiros releases de software 1.10 e 1.11).
Dist Gl Distância para o goal. Quando numa rota ativa, considera as distâncias para cada waypoint da rota e o goal.*
Dist to WP Distância para o próximo waypoint de uma rota.*
Vario Vário digital como campo configurável pelo usuário na tela de planeio final.
A1 Altitude 1 (nível do mar) como campo configurável pelo usuário na tela de planeio final.
Alt2 Altura referencial. (pode ser definida como 0 a qualquer momento)
Alt 3 Total de altura ganha durante um vôo.
Dst Toff Distância para o start ou para o início do reconhecimento do vôo.
Dist Cyl Distância para o cilindro de um waypoint, quando numa rota de competição.
Dist to^ Distância para a última térmica.*
Time Hora.
Fl.Time Tempo de vôo desde a decolagem.
Wind Spd Velocidade calculada do vento a partir de circulos (giros) em vôo.*
Airspeed Speed Quando medida com um velocímetro (windprobe) ou quando calculada pela unidade, é a velocidade real em relação ao ar(TAS).
GND speed Velocidade em relação ao solo.*(GS)
Spd-Diff Componente de vento. (GS - TAS)*
Bearing Direção para um destino escolhido.*
Track Trajeto de vôo(curso).*
Temp Temperatura interna
QNH hPa Pressão atmosférica em Hector-Pascal
L/D gnd Planeio atual em relação ao solo (Ground Speed/Sink).*
L/D air Planeio atual em relação ao ar. Disponível somente quando usando velocímetro conectado à unidade.
L/D req Planeio necessário para alcançar um waypoint.*
* Ativo somente quando o receptor GPS está ligado.
Bom, estes são apenas alguns detalhes que contribuem para o estabelecimento cada vez mais forte dos integrados entre os pilotos. Eles já são uma realidade. Estão com versões de software bem estáveis e confiáveis, disponibilizam uma gama bem completa de informações para escolha do piloto na montagem de cada tela, são práticos e fáceis de usar e, talvez o principal, estão com preços bem acessíveis.

A temporada das chuvas passou e agora definitivamente estamos de volta aos céus. As temporadas de vôo estão chegando em todo o Brasil e a hora de avaliar e trocar de equipamentos é exatamente agora, na pré temporada. Assim, há tempo de se adaptar ao novo e tirar o máximo de proveito de todo o conjunto na alta temporada de vôo.

Bons e longos vôos a todos!!!

Júnior CB – Brasília/DF
SOL Sports – Eu vôo assim!
XCountry is about choices and time. Be fast!
Be happy. That´s what matter!

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